Descrição de chapéu

A máscara de Putin

Russo abandona legalismo frágil e sugere desvio constitucional para manter poder

O presidente da Rússia, Vladimir Putin - Mikhail Klimentyev/Sputik/AFP
 

Líder da Rússia pós-czarismo de maior longevidade no cargo desde o ditador soviético Josef Stálin, Vladimir Putin ostenta 20 anos no timão de seu país —duas vezes como premiê, quatro como presidente.


Segue imbatível como figura de proa, ainda que enfrente protestos internos ligados à ossificação que presidiu do ambiente político e à crise estrutural de uma economia dependente de hidrocarbonetos.

No campo externo, tem acumulado vitórias táticas sobre seu grande rival estratégico, o Ocidente. De forma paradoxal para quem é acusado de liderar uma autocracia, é visto hoje em vários países como um campeão da multipolaridade, em oposição ao isolacionismo dos Estados Unidos de Donald Trump.

Cinismo à parte, Putin sempre buscou o lustre do legalismo, ainda que tenha agido ao arrepio da lei internacional em episódios como a anexação da Crimeia, em 2014.

Em 2008, por exemplo, rejeitou mudar a Constituição para buscar uma segunda reeleição consecutiva, que seria facilmente obtida.

Preferiu eleger um preposto e esperar, numa então vitaminada cadeira de primeiro-ministro, até voltar ao papel principal em 2012. Não que tenha deixado de mandar, mas manteve as aparências.

Na quarta (15), Putin surpreendeu o mundo mais uma vez. Anunciou, em seu discurso anual à elite política, que promoverá um referendo visando alterar a carta magna. No cardápio, fortalecimento do cargo de premiê, do Parlamento e do anódino Conselho de Estado.

Além disso, enfraquecimento da Presidência, prevendo o veto a mais do que uma reeleição e obrigando o titular a aceitar indicações de ministros e vice-premiês feitas pelo primeiro-ministro e aprovadas por deputados.

Ato contínuo, o gabinete liderado pelo premiê Dmitri Medvedev, o supracitado preposto de 2008, renunciou. Putin escolheu um cinzento tecnocrata para o cargo, ratificando controle absoluto sobre o processo sucessório daqui em diante.

Pelas regras atuais, Putin terá de deixar o cargo em 2024, e só poderá se candidatar de novo seis anos depois, quando fará 78 anos.

Analistas já se perguntam se ele quer virar um “superpremiê” ou encabeçar um renovado Conselho de Estado, com amplos poderes.

Seja qual for a resposta, e ainda há muito tempo pela frente, o que parece certo é a perenidade de Putin. E a queda irreversível de sua máscara legalista, pelo casuísmo explícito embutido na sugestão.

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