Descrição de chapéu
Miguel de Almeida

Doria e o vaso sanitário de Bill Gates

Governador revive síndrome do prefeito de interior

Quase todos os governantes brasileiros sabem quem é Bill Gates. Ao menos são capazes de balbuciar se tratar de um dos homens mais ricos do mundo.

O documentário “O Código Bill Gates”, direção de Davis Guggenheim, na Netflix, mostra a segunda revolução a ser provocada por essa figura heráldica —e polêmica. Depois de demonstrar na prática que o software é mais importante do que o hardware, Gates agora conseguiu colocar em linha de produção (com uma empresa chinesa, em novembro passado) um vaso sanitário que prescinde de fossa (ou esgoto, ou cano) e litros de água.

O escritor e diretor Miguel de Almeida (escritor) - Mathilde Missioneiro - 11.set.19/Folhapress

No vaso, o cidadão fará ali suas necessidades. Cocô e xixi serão trabalhados por processos químicos —a urina virará pó (pode ser usado como fertilizante, dado seu potencial em vitaminas) e as fezes se transformam em energia. Uma família de cinco pessoas bem alimentadas gera uma massa diária (no vaso) capaz de recarregar seus celulares.

O modelo do atual vaso sanitário, com o uso intensivo de água e necessidade de uma rede de esgoto, e depois reprocessamento, é artefato consolidado no final do século 18. Mais da metade da população mundial vive sem saneamento básico. Com mais um agravante: estima-se que 30% da água consumida pelos americanos seja gasta apenas em seus vasos sanitários.

Bill Gates fala em evento de tecnologia na China
Bill Gates usou um béquer cheio de fezes para chamar atenção para bactérias e doenças relacionadas ao saneamento - 11.jul.18/AFP

Sabendo que a água é um dos bens humanos mais disputados, só essa economia inicial já é um alento. Sem falar no número de vidas a serem poupadas. O vaso de Gates, hoje, atende a 25% da população de Dakar.

A patente do vaso sanitário dará à Fundação Bill e Melinda Gates, seus financiadores, milhões de dólares nas próximas décadas.

Em setembro último, antes de saudar a morte de nove jovens pobres pela sua eficiente polícia, o governador João Doria (PSDB) anunciou a ampliação de mais uma fábrica de automóveis no Brasil, desta vez a Toyota. Para ganhar esse negócio, o governo paulista dará incentivos fiscais. O investimento de R$ 1 bilhão —juram os envolvidos— gerará 300 novos empregos diretos.

Em 2018, a Qualcomm anunciou —também em São Paulo, sob o governo Márcio França (PSB)— a construção de uma fábrica de semicondutores e chips para smartphones e a internet das coisas. Serão US$ 200 milhões e deve empregar 800 pessoas. Por meio de um centro por ela financiado, a empresa pretende discutir com os municípios a implantação de soluções de cidades inteligentes. O centro será criado junto com universidades. É troca de tecnologia, e sem subsídio.

Dias atrás, o Porto Digital de Recife veio a público com um alarme: possui mil vagas para programadores —e faltam profissionais habilitados para preenchê-las. A tendência é piorar o quadro.

Pesquisas de empresas multinacionais trazem um registro dramático: o brasileiro gasta um dia para produzir o equivalente a um americano em cinco horas (o alemão, em seis; o chinês, em oito).

Onde está o futuro? A produção de automóveis, por ser robotizada, emprega cada vez menos (além de essas multinacionais não trocarem tecnologia nem para a maçaneta). João Doria, o Witzel com botox, revive a síndrome do prefeito de interior em busca do arcaico distrito industrial. Um paralelo, coitado: Doria briga pela fábrica de chicotes e ignora o motor a vapor.

Miguel de Almeida

Escritor e diretor dos documentários 'Não Estávamos Ali para Fazer Amigos' e 'Tunga, o Esquecimento das Paixões'

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