Descrição de chapéu
Denise Nacif Pimenta e Débora d’Ávila Reis

Qual divulgação científica (não) queremos?

Sob ameaça, cientistas devem adotar visão crítica

Divulgar, divulgar, divulgar. Palavra que tem se repetido nas bocas de acadêmicos, jornalistas, gestores, financiadores e aqueles envolvidos naquilo que denominamos hoje de divulgação científica. Mas de qual divulgação científica estamos falando? Qual se faz necessária no contexto atual? Qual ciência queremos ou devemos divulgar? 

Divulgar uma ciência tecnicista, que invisibiliza os interesses econômicos e políticos que influenciam a sua produção? Ciência universal, que desconsidera singularidades e contextos locais? Ou uma ciência cheia de maravilhas, mas também de controvérsias, contradições e riscos?

Ato de divulgação científica e de apoio à ciência, em São Paulo - Jardiel Carvalho - 18.jul.19/Folhapress

Em tempos de fake news, a divulgação científica é tratada como “cura” para todos os males. Panaceia que vem nos salvar da ignorância e dos terrores da antidemocracia. Versão 6.0 de um iluminismo que vê na ciência e na tecnologia salvação e, quiçá, redenção. Será mesmo?

A ciência e os cientistas estão sob ameaça. Divulgamos ciência para “provar” para a sociedade, para as agências de financiamento e até para nós mesmos que fazemos ciência e que fazer ciência no Brasil ainda vale a pena... Então fazemos (meio sem saber direito para que serve, nem com quem queremos dialogar) vídeos, blogs, podcasts,  pitches, palestras “ad nauseam”. Lotamos sites institucionais de resultados e trazemos a dita população para se assentar calada nos auditórios. Mas divulgar é mais do que somente desenvolver produtos. O momento urge por uma visão mais crítica.

O “griot” (contador de história da tradição africana) Sotigui Kouyaté nos lembra que a pior coisa do mundo é a ignorância. Ele e seu povo concordaram que o maior ignorante “é aquele que não foi ao encontro dos outros”. Divulgar ciência é também ir ao encontro dos outros. Ir além do muro (gigantesco!) da academia. Ousar escalar esse muro criado ao longo da história por nós mesmos e navegar horizontes desconhecidos e/ou esquecidos. 

Divulgar é conversar sobre ciência sim, mas também escutar outras falas, conhecer demandas inimagináveis para ensinar aprendendo. Dialogar com quem tem sido designado a ficar calado. Este outro, este “público-alvo” que insiste em questionar nossas certezas. 

É preciso ir além da boa vontade e investir recursos, pessoas, tempo e estrutura. Assumir o compromisso social, político e cultural na produção do conhecimento. Há riscos (ora acertamos, ora erramos). Não tem receita. Requer atuação inter, multi e transdisciplinar.  

Gabriel Perissé faz um resgate etimológico da palavra “divulgar” e aponta sua partícula latina “dis”, indicando variedade de direção, dispersão, e pelo verbo “vulgare”, que significa “espalhar”, “publicar”. 

Ao divulgar, lançamos em todas as direções uma ideia, uma palavra. Vamos abrir espaços para as palavras ressoarem. É tempo de unirmos, acadêmicos e não acadêmicos, para compartilharmos conhecimentos que nos conduzam a um mundo mais justo e com mais escuta. Mais do que incluir, sejamos (re)integrados para lutar por uma divulgação que realmente queremos.

Denise Nacif Pimenta

Pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)

Débora d’Ávila Reis

Professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

TENDÊNCIAS / DEBATES

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