Descrição de chapéu
Barbara Gancia

Bye-bye, beijinhos!

Com o coronavírus, melhor só dar um 'oi' de longe

Sempre fui a alegria da festa e, como tal, a primeira a ser abraçada e beijada por convivas agitados e suados, bem como alvo de perdigotos perdidos no decorrer da noite, disparados por boêmios sanguíneos, tão falastrões quanto aquela baladeira de outrora que em mim habitava.

Mas, mesmo naquela época de intensa gandaia, fervo e alalaô, eu sempre andava com um lenço no bolso, com o propósito explícito de higienizar o rosto depois de saudar a festa inteira.

A jornalista Barbara Gancia em entrevista ao programa 'Conversa com Bial', da TV Globo - Divulgação

Encarava como um colossal despropósito o costume, tão disseminado entre os povos de origem latina, de cumprimentar aos beijos e abraços efusivos, por vezes tascando até três beijos alternados nas bochechas, simplesmente para dizer “olá”.

Na Grã-Bretanha dos tempos pré-União Europeia (eu frequentava muito a ilhota nos anos 1970 e 1980) era considerado um tipo brando de promiscuidade dizer “oi” na base da “esfregação” (opa, lá vem a Damares!). Eles viam o hábito como falta de educação. Aparentemente, essa visão tem origem no tempo das Cruzadas, quando os bárbaros estendiam a mão como prova de que não estavam prestes a sacar uma arma para atingir quem deles se aproximava.

Inversamente, os não bárbaros podiam se dar ao luxo de dizer apenas “tudo bem aí, pessoal?” na hora de adentrar um recinto, sem arriscar uma tendinite no dedão ou se expor a uma hérnia de disco só para beijar quem está sentado no sofá.

Em tempos de alto risco pela disseminação do coronavírus, o cumprimento com dois beijinhos e o combo abraço e tapinha nas costas mais aperto de mão constituem muito mais do que uma prática anti-higiênica que já deveria ter sido extinta.

Desde os tempos do selinho da Hebe que venho insistindo que precisamos acabar com essa forma insalubre, incômoda e pouco prática de nos manifestar.

Quem se responsabiliza pela conjuntivite ou pneumonia adquirida naquela confraternização hipócrita da Igreja Católica, em que os fiéis se dão as mãos ao final da missa para se convencer de que se reconhecem na paz de Cristo?

Gostaria de comunicar que, a partir de quarta-feira (26), dia em que o novo coronavírus aportou oficialmente entre nós, não vou mais beijar nem abraçar para dar “oi”, exceção feita aos meus dois cães salsicha.

Você dirá “que exagero”, que sou contra o amor e a carnalidade; uma careta, enfim. 
Mas a intenção aqui é externar estupefação ante a falta de urgência que nós, afetuosos e alegres brasileiros, temos em perceber o problema real que ora aflige toda a humanidade: a disseminação de doenças contagiosas em um mundo interligado por aviões, turismo de massa e armas químicas cada vez mais sofisticadas.

Especialmente no calor, por que não acabamos de uma vez com esse desconforto? Não seria bem mais elegante dar apenas um sorriso seguido de um “como vai?”?

Barbara Gancia

Jornalista

TENDÊNCIAS / DEBATES

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