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Edson Luiz Sampel

Católicos, cuidado para não pecarem!

Julgar o papa Francisco por receber Lula é ignomínia

É comum ver na internet e noutras mídias certos católicos chamando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “criminoso” etc. Argumentam que o petista foi condenado pelo Poder Judiciário e, pronto, é criminoso.

Raciocínio pueril! Em primeiro lugar, encontram-se sub judice (em andamento) as ações contra o ex-presidente da República, inclusive a que o conduziu temporariamente ao ergástulo. Isso sem falar da notória troca de mensagens cibernéticas entre o juiz do processo e o procurador, vicissitude que, conforme os advogados de Lula, comprometeu a imparcialidade do magistrado. 

Em visita ao Vaticano, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é abençoado pelo papa Francisco - Ricardo Stuckert - 13.fev.20/Instituto Lula

De acordo com as leis de nosso país, ninguém será considerado culpado até que haja sentença transitada em julgado (Constituição Federal, artigo 5º, inciso LVII). Em segundo lugar, o epíteto “criminoso”, por exemplo, implica juízo de valor moral e é um xingamento que não costuma ser respaldado nas sentenças judiciais, que se restringem a subsumir os fatos provados ao tipo penal.

Em terceiro lugar, do ponto de vista ético-religioso, temos de esclarecer que a pessoa que sai por aí acusando Lula ou quem quer que seja de pecado contra o sétimo mandamento (não furtar) pode estar cometendo um pecado contra o oitavo mandamento (não levantar falso testemunho). Além disso, Jesus é claríssimo: “Não julgueis para não serdes julgados. Pois, com o julgamento com que julgais sereis julgados, e com a medida com que medis sereis medidos” (Mateus 7, 1-2). Ademais, preceitua o cânon 220 do CIC, ora traduzido em português: “A ninguém é lícito lesar ilegitimamente a boa fama de outrem, nem violar o direito de cada pessoa a proteger sua própria intimidade”. 

Gostaria de acrescentar que Lula, segundo testemunho dado por dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, em palestra em Campinas (SP), possibilitou exuberante conquista para nós, católicos, à medida que, por iniciativa pessoal e contrariando mesmo o parecer do então ministro das Relações Exteriores, bateu energicamente na mesa e ordenou: “Eu quero o Acordo-Brasil Santa Sé!”. Os antecessores imediatos de Lula engavetaram o projeto e não demonstraram interesse na referida avença diplomática entre o Estado e a Santa Sé, atualmente tão benéfica para a Igreja no Brasil.

Outra situação deplorável ocorre quando católicos invectivam o papa, tachando-o de comunista ou até de anticristo, inclusive por haver conversado com o ex-presidente. 

Quem tão ignominiosamente desrespeita o “doce Cristo na Terra” (expressão cunhada por santa Catarina de Sena) já não é mais católico. São Luís Orione metaforizava o amor incondicional ao bispo de Roma, afirmando que mesmo se o papa fosse o guerrilheiro Garibaldi, ainda assim, mereceria o desvelo dos católicos. O papa Francisco, na trilha de seus últimos predecessores, máxime são João Paulo 2º, ensina e aprofunda a doutrina social da Igreja, com o novo incremento da ecologia, coisas que não têm nada a ver com comunismo.

Por fim, se o Santo Padre, o papa Francisco, sucessor de são Pedro, maior autoridade da Igreja Católica, houve por bem recepcionar Lula no Vaticano, provavelmente ao menos bispou alguma pulcritude na alma do estadista!

Edson Luiz Sampel

Teólogo e professor da Faculdade de Direito Canônico São Paulo Apóstolo, da Arquidiocese de São Paulo; autor, entre outros livros, de 'Elementos de Direito Eclesiástico Brasileiro' (ed. Santuário)

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