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Lauro Gonzalez

Empresas, ética e democracia

Não há blindagem possível que separe valores dos objetivos do mercado

No exato dia em que o ex-secretário da Cultura do governo Bolsonaro proferiu um tenebroso discurso ecoando princípios estéticos nazistas, a Bolsa de Valores subiu, encerrando o dia em níveis recordes, e o dólar caiu. Essa combinação de eventos reacendeu a discussão sobre a natureza do comportamento do mercado, cujos movimentos pairariam acima, para usar a expressão da colunista da Folha Angela Alonso, do que acontece na sociedade, na política etc.

A fogueira ainda foi alimentada por diversas reportagens, dentre as quais uma escrita nesta Folha citando frases de especialistas sobre o episódio. Embora isoladas, as frases são bastante emblemáticas. Samuel Pessoa, por exemplo, afirmou que “o mercado não tem posição política e opera com base em projeção de ganhos”.

Imagem mostra Roberto Alvim ao centro, sentado em uma mesa; acima dele, a foto do presidente Jair Bolsonaro; ao seus lados, a bandeira brasileira e uma cruz
O ex-secretário da Cultura do governo Bolsonaro, Roberto Alvim, em vídeo em que parafraseia o nazista Joseph Goebbels - Reprodução/Twitter

Será mesmo? Diversos estudos permitem questionar a frase acima ou, no mínimo, enxergar as nuances envolvidas, compartilhando a visão crítica em relação ao alegado silêncio do mercado diante de tudo que não pareça estritamente ligado ao lucro. Primeiramente, vale ressaltar as limitações de se extrair conclusões baseadas em um único dia, conforme esclarecido pelo próprio Samuel em artigo posterior. 

Entretanto, o debate é mais amplo. Um possível ponto de partida é a determinação do que seria o objetivo das empresas que compõem o mercado. O célebre artigo escrito por Friedman em 1970 afirmava que as empresas (seus dirigentes) deveriam ter como objetivo único a maximização do lucro ou valor de mercado, o que geraria, empurrado pela mão invisível do mercado, bem-estar social.

Hart e Zingales questionam Friedman e a ideia de que a maximização do bem-estar dos acionistas seja sempre idêntica à maximização do valor de mercado. Os diversos acionistas de uma empresa certamente se preocupam com lucro; entretanto, podem ter também preocupações éticas, relacionadas, por exemplo, ao  meio ambiente ou à desigualdade. Se acionistas individuais têm essas preocupações, por que as empresas não deveriam ter? 

A explicação à la Friedman é que haveria uma separação entre “ganhar dinheiro” e outras preocupações. As empresas maximizariam lucro enquanto governo e indivíduos, inclusive acionistas, lidariam com externalidades. Isso significa, por exemplo, que o acionista de uma empresa de varejo que vende armas poderia usar os dividendos recebidos para financiar campanhas de combate às próprias armas, revertendo ou compensando os efeitos causados pela empresa. Não é preciso muita imaginação para perceber que há uma assimetria em termos do tamanho do efeito da ação da empresa e do seu acionista, dificultando a reversão prevista por Friedman e abrindo espaço para que a maximização do bem-estar do acionista vá além do lucro.

Huhn e Dierksmeier seguem um outro caminho conceitual e buscam fazer um retrato alternativo ao “Adam Smith de Chicago”, um dos alicerces intelectuais para a construção do modelo de Friedman. Ao contrário da visão amplamente disseminada, os autores afirmam que Smith via as questões éticas ocupando lugar central no propósito das empresas e enxergava os indivíduos como seres cujo comportamento não poderia ser reduzido unicamente ao autointeresse. Os detalhes do artigo fogem ao escopo aqui pretendido, mas vale notar algumas das conclusões didaticamente apontadas pelos autores.

Do ponto de vista teórico, o “verdadeiro Smith” pode colaborar epistêmica e metodologicamente para a construção de teorias que (re)internalizem as questões éticas nos modelos econômicos. Em termos práticos, modelos de estratégias de mercado devem incluir dimensões éticas sem as quais, ao longo do tempo, a própria continuidade das empresas estará ameaçada.

Se as instituições não funcionarem adequadamente, os beneficiados por decisões de governo serão seus apoiadores, em detrimento do restante da sociedade, inclusive empresas e seus líderes. Portanto, mesmo reconhecendo as contradições e o jogo de interesses intrínseco aos arranjos de mercado, não há blindagem possível separando valores éticos, tais como a defesa da democracia, dos objetivos de longo prazo das empresas.

Lauro Gonzalez

Professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo-FGV e coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV

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