Descrição de chapéu
José Osvaldo De Sordi

Inovação pela exaptação de competências disponíveis

É possível adaptar produtos e serviços a baixo custo

Pesquisadores da área de inovação têm desenvolvido analogias entre evolução de produtos e serviços (P/S) e os mecanismos de evolução das espécies. As mais interessantes estão associadas aos mecanismos definidos mais recentemente pelos paleontólogos, como a exaptação: quando uma característica útil do ser passa a ter outra função.

A pena é exemplo clássico: primeiramente útil à regulação da temperatura (isolamento) e, posteriormente, cooptada (exaptada) para o voo. A ideia é de algo apto que, em segundo momento, ganha outra aptidão. Daí o prefixo “ex” agregado à palavra “aptation”, ou seja, tem uma nova função e uma ex-função.

José Osvaldo De Sordi - docente-pesquisador da Unifesp e Unifaccamp; desenvolve pesquisas e assessoria empresarial na FapUnifesp (Fundação de Apoio à Universidade Federal de SP).
O professor e pesquisador José Osvaldo De Sordi - Divulgação

O mecanismo de adaptação é exatamente o contrário. Nele, o ser ou empreendedor adiciona (“ad”) e amplia a sua aptidão (“aptation”) atual para atender mais usuários, envolvendo esforços de mudança da sua forma. Exemplo: uma montadora ao adaptar o veículo para o mercado inglês implica carro alterado (volante do lado direito) para a mesma função (transportar pessoas), porém atendendo a um público maior.

Exemplo atual mais difundido de exaptação de produto é o do princípio ativo denominado citrato de sildenafila na indústria farmacêutica. Utilizado inicialmente no tratamento da hipertensão arterial, observou-se um efeito colateral entre os seus pacientes: ereção involuntária. A farmacêutica utilizou-se do mesmo princípio ativo para o desenvolvimento de um novo medicamento voltado à disfunção erétil. 

Aqui, a exaptação não foi planejada e deliberada pela área de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D), mas decorrente de algo oportunístico. Exemplo oposto, de aplicação deliberada da lógica exaptativa, observa-se na criação da imprensa por Gutenberg. O insight criativo surgiu após Gutenberg visitar uma vinícola e ver como o suco de uva era obtido por meio de prensa. Ele deu à prensa nova função, a impressão, sem alterar a sua forma.

A lógica adaptativa é contraponto e boa analogia à lógica exaptativa. Na adaptação, altera-se a forma para manter-se a mesma função. Na exaptação, a forma permanece inalterada, porém a função passa a ser outra. Sem incidir em custos altíssimos de P&D, a ideia, em termos de negócios, é conseguir lançar novos P/S a partir do que já está disponível na organização. Trata-se de importante concepção lógica e criativa que deve estar incorporada ao modelo mental de empreendedores, profissionais de P/S, docentes da área de inovação e consultores que apoiam o desenvolvimento das organizações, entre outros. 

Atualmente, trabalhamos com empresas de diferentes portes, inclusive as pequenas, mostrando que a lógica exaptativa se aplica não apenas a P/S altamente tecnológicos, mas aos processos e atividades diárias. Em pesquisa recente com 46 empreendedores, discutimos e identificamos como esses trabalharam a exaptação de dados, habilidades e processos, entre outros recursos, gerando valor e competitividade para as suas organizações.

José Osvaldo De Sordi

Professor e pesquisador da Unifesp e e da Unifaccamp, desenvolve pesquisas e assessoria empresarial na FapUnifesp (Fundação de Apoio à Universidade Federal de São Paulo)

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