Descrição de chapéu
Diogo Meyer

O design inteligente, tido como vertente do criacionismo, é uma teoria científica válida? NÃO

Respostas implicam mais ciência, e não jogar a toalha

O que torna uma explicação científica? Ela deve ser testada contra observações do mundo natural, ter consistência com o conhecimento vigente e ter passado pelo crivo da comunidade científica. Em seus congressos, livros e revistas, cientistas examinam, avaliam, endossam ou refutam explicações.

Também há, claro, formas não científicas de explicar o mundo, sendo a religião uma delas. A ciência e a religião oferecem explicações profundamente diferentes, ambas legítimas, refletindo aspectos distintos de nossa cultura.

Diego Meyer - Professor do Instituto de Biociências da USP, escreve para o blog www.darwinianas.com
O professor Diogo Meyer, do Instituto de Biociências da USP - Divulgação

Para a diversidade de seres vivos na Terra há uma explicação científica: a teoria da evolução. Segunda ela, toda a vida na Terra resulta de um processo de descendência com modificação, e seres vivos são conectados uns aos outros por elos de ancestralidade comum. A teoria da evolução sobreviveu aos testes contra observações e passou pelo controle de qualidade da comunidade científica. Já para os criacionistas, algum tipo de intervenção divina originou a diversidade de formas vivas. Reiterando, essa é uma explicação legítima, mas não científica, pois não se apoia em observações nem pretende ter consistência com conhecimentos científicos vigentes. 

O design inteligente (DI) é uma forma de criacionismo com uma aparência científica, pois usa achados bioquímicos e moleculares para negar a evolução. Seu argumento é que seres vivos têm traços que são complexos demais para serem explicados por processos naturais. Mas o DI é equivocado, porque a ciência tem uma ótima explicação para a complexidade: a seleção natural, que é capaz de originar estruturas complexas através de sucessivas mudanças. Além de ser baseado num argumento facilmente rejeitado, o DI não é capaz de refutar a imensa gama de achados que sustenta a teoria da evolução.

Além disso, o DI nada explica sobre o mundo natural, pois diante de estruturas complexas simplesmente afirma que há um “projetista”. Sem especificar quem é o projetista, ou como fez a estrutura, não aprendemos nada e não podemos planejar experimentos para testar a teoria. Assim, o DI não é ciência, e não deve ter lugar numa instituição científica, ou em aulas de ciências. 

Apesar disso, o novo presidente da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, órgão ligado ao MEC), Benedito Guimarães Aguiar Neto, defendeu publicamente a introdução do DI como “contraponto” à evolução em salas de aula. Mas trazer uma explicação religiosa para a aula de ciências não é incentivo à pluralidade: é fomento à confusão, por tratar explicações incomensuráveis como sendo alternativas. 

Os proponentes do DI afirmam que a comunidade científica é fechada e não dá espaço para argumentos contrários à evolução. Não é verdade: conviver com críticas é o arroz com feijão da ciência. Diariamente, cientistas travam embates uns com os outros, não evitam debates ou questionamentos. Pelo contrário, vivem em função de respondê-los. Buscar respostas implica fazer mais ciência, e não jogar a toalha e aderir a pseudoexplicações, como faz o design inteligente.

O DI ignora o conhecimento fundamentado em observações e no consenso da comunidade científica. Esse descompromisso tem consequências graves, pois erode a confiança nos cientistas, na medida em que questiona sem base o conhecimento estabelecido. 

Se negarmos a ciência da evolução, tão ricamente apoiada, abriremos a porta para ignorar o conhecimento científico de um modo geral. Então, o que faremos na hora em que precisarmos da ciência para planejar campanhas de vacinação, tratar o câncer, ou lidar com o aquecimento global? 

Defender a inclusão do DI nas aulas de ciência é, pois, ainda mais grave do que pode parecer.

Diogo Meyer

Professor do Instituto de Biociências da USP, escreve para o blog www.darwinianas.com

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