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Silvano Raia, Robson Capasso e Nuno Sousa

O ensino de hoje para a medicina do amanhã

Princípios éticos nortearão interesses dos pacientes

O momento atual se caracteriza pela enorme produção de conhecimentos em todos os campos da biociência. Por outro lado, a medicina é um exercício de serviço. Serviço hoje, serviço amanhã.
Dessa forma, se servir hoje já é difícil, servir no futuro representa uma tarefa ainda mais complexa. Exige uma preparação adequada que antecipe as necessidades do futuro.

Atualmente, para a construção de um aluno preparado para enfrentar esse desafio, a comunidade científica que se interessa por educação médica tem sugerido acrescentar ao ensino das competências clínicas “clássicas”, ainda que em permanente mutação, outras “novas” necessárias para acompanhar o progresso geométrico das últimas décadas. 

O cirurgião Silvano Raia, professor emérito da USP - Bruno Poletti - 9.mai.16/Folhapress

No primeiro grupo valorizam-se conhecimentos sólidos sobre os mecanismos das várias patologias associados à capacidade de usar os métodos diagnósticos mais recentes.

No segundo, contam-se competências em áreas de interação de conhecimento, como inteligência artificial, medicina digital, “data science”, robótica e gestão na saúde, bem como competências de liderança e trabalho em equipe.

Escolas de medicina de vanguarda, como nas Universidades do Minho (Portugal) e de Stanford (EUA), enfrentam esse desafio de forma inovadora: concretizar a ambição de cada aluno através de um modelo educacional transformativo de referência, com um programa de ensino aberto à investigação e à inovação capaz de antecipar o futuro da saúde. Tem por base quatro pilares: ciências biomédicas, ciências clínicas, ciências dos sistemas de saúde e humanidades em medicina. 

Esses pilares convergem em ciclos de formação obrigatórios onde as competências dos diferentes saberes (cognitivo, saber fazer e saber estar) são trabalhados por metodologias ativas (ensino baseado em casos e laboratórios ativos) que promovem o contato precoce com a clínica e com o raciocínio clínico que são consolidados por uma avaliação.

Esses ciclos são agregados para a construção de um perfil próprio para cada estudante, e pela liberdade de escolha de opções. Com isso se oferece uma oportunidade única de adquirir um conjunto de competências complementares, mas críticas, para o seu desenvolvimento profissional de tal forma a adequá-lo ao perfil que deseja adotar no futuro.

 

No Brasil, devemos considerar algumas variáveis específicas: sua diversidade social faz com que a população menos favorecida dependa da chamada assistência básica. Ela dever basear-se em conhecimentos já sedimentados, ao mesmo tempo que permita oferecer aos pacientes os benefícios da tecnologia moderna. 

Essa aproximação cria muitos problemas, cuja solução individual é impossível de ser ensinada em um curso de graduação. O que se faz, então, é ensinar aos alunos o raciocínio ativo. Ao invés de lhes oferecer apenas soluções já prontas, propõe-se ensiná-los a como criá-las. Assim, estarão preparados para solucionar as dificuldades que aparecerem ao longo do seu percurso profissional, muitas delas imprevisíveis.

Devemos enfatizar, entretanto, que essa tendência criativa deve ser balizada, como nunca até hoje, por princípios éticos que defendam os reais interesses do paciente e da sociedade. As perspectivas que a engenharia genética oferece atualmente fazem com que esses cuidados se tornem particularmente necessários.

Percebe-se assim que devemos antecipar em 2020 as necessidades do sistema de saúde em 2050. Estaremos confirmando a citação de Lincoln: “A melhor forma de prever o futuro é cria-lo”.

Silvano Raia, Robson Capasso e Nuno Sousa

Professor emérito da USP; professor da Faculdade de Medicina de Stanford (EUA); e presidente da Faculdade de Medicina do Minho (Portugal)

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