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Ricardo Ariel Zimerman

Com o avanço da Covid-19, o Brasil deve adotar já medidas drásticas de confinamento? NÃO

Precisamos evitar mortes, mas é imprescindível avaliar riscos

As doenças infecciosas moldaram a história, sendo alvo de temor. Embora o Brasil e o mundo sejam tomados por moléstias como dengue e novos surtos de sarampo, uma doença nova e incerta provoca medo. Acostumados a uma previsibilidade no mundo moderno, nos assustamos com o imponderável.

Toleramos e nos habituamos com as milhares de mortes produzidas por acidentes de trânsito, mas é muito mais fácil encontrar pessoas com medo de voar de avião. Isso se dá porque acidentes aéreos causam grande comoção e são divulgados de forma maciça.

Hospital de Seul, na Coreia do Sul, criou cabines individuais para agilizar as testagens para a Covid-19; instalações evitam que a equipe médica tenha qualquer contato com os pacientes - Ed Jones - 17.mar.20/AFP

O surto de Covid-19 começou de maneira repentina e países como Itália contam milhares de mortos, enquanto a Coreia do Sul soma uma centena. Há uma enorme dificuldade em conhecer a real taxa de mortalidade, dada a velocidade da epidemia e a proporção desconhecida de assintomáticos, uma vez que cada país adotou, de acordo com a estrutura local, uma estratégia de coleta de exames.

Imaginar que 3% do mundo possam falecer em poucos dias é aterrorizante. Alguns pesquisadores, porém, questionam essas taxas. Evidências sugerem que grande parte dos infectados apresentam poucos ou até nenhum sintoma. O exame de pesquisa de vírus respiratórios é caro e não o fazemos frequentemente. É possível que estejamos diante de uma doença com taxa de mortalidade bem menor que a descrita, embora de velocidade de disseminação elevada. A testagem consistente dos casos é a única forma de conhecermos a real letalidade do vírus, de garantirmos tratamento precoce adequado, isolamento dos infectados, sintomáticos ou não, e da realização da busca ativa dos contactantes.

A restrição parcial à circulação é uma estratégia de prevenção já usada em vários países e em parte do Brasil, mas que nunca foi aplicada dessa maneira na história. Traz como vantagens potenciais a prevenção de picos extremos no número de novos casos que possam surgir em um breve período de tempo (“achatamento de curva”), enquanto permite que ocorra algum grau de transmissão, fundamental para o estabelecimento do que chamamos de “imunidade de rebanho”.

Se limitássemos a circulação principalmente da população mais predisposta às complicações, poderíamos permitir que uma certa percentagem de jovens já chegasse à estação do inverno naturalmente protegida, o que poderia evitar a transmissão aos mais suscetíveis em uma época de cocirculação de outros vírus e de maior esgotamento da capacidade assistencial da rede de saúde.

Já o confinamento completo de populações inteiras é uma medida que precisa ser pensada com muita cautela, à luz dos dados científicos disponíveis e do bom senso. Em artigo publicado nesta semana, o professor de epidemiologia John Ioannidis, da Universidade Stanford, questiona essas medidas, baseadas em dados ainda incertos e comenta sobre todos os grandes riscos que a humanidade corre no longo prazo ao tomar ações tão drásticas. Faz sentido, afinal de contas: se esta fosse a resposta, a humanidade estaria em quarentena domiciliar desde a gripe espanhola de 1918.

Devemos nos questionar a fundo se tal decisão não poderia ser evitada com o uso adequado dos recursos tecnológicos de testagem. Nas palavras do infectologista Kim Woo Joo: “A Coreia do Sul é uma república democrática, nós achamos que o ‘lockdown’ (fechamento geral) não é uma alternativa razoável”.

Os gestores públicos, pressionados pelo pânico, necessitarão de muita calma e suporte científico para não errar na dose desse “tratamento”. Precisamos evitar mortes, mas é imprescindível avaliar riscos e benefícios das condutas tomadas agora, pensar um pouco à frente e buscar o maior número de evidências que possam nos guiar. A Covid-19 mata, mas o pânico pode matar muito mais.

Ricardo Ariel Zimerman

Médico infectologista e ex-presidente da Associação Gaúcha de Profissionais em Controle de Infecção e Epidemiologia Hospitalar

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