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Caroline Franco, Renato M. Coutinho e Roberto A. Kraenkel

Com o avanço da Covid-19, o Brasil deve adotar já medidas drásticas de confinamento? SIM

Tempos excepcionais demandam medidas excepcionais

O mundo vive uma emergência. O Brasil vive uma emergência. A epidemia de Covid-19 já é uma realidade global, e o Brasil sente seus efeitos: nosso dia a dia já mudou. O mundo está diante de uma das mais graves ameaças epidemiológicas desde a epidemia de H1N1 de 1918-19, a conhecida gripe espanhola.

No Brasil, estamos em uma fase de crescimento exponencial da epidemia, esperada quando um novo agente infeccioso se espalha numa população. Podemos caracterizá-la pelo tempo de duplicação do número de casos, que é aproximadamente constante nesta fase. Quanto maior este tempo, mais lentamente a epidemia progride. No momento, o número de casos dobra a cada dois dias e meio em nosso país. Isso está de acordo com o que outros países apresentaram no começo da epidemia. Espanha e Itália têm taxas de duplicação próximas à nossa até hoje.

Soldados do Exército italiano patrulham ruas de Milão para reforçar o bloqueio contra a propagação do novo coronavírus - Daniele Mascolo - 20.mar.20/Reuters

Diante dos fatos de que cerca de 20% dos casos diagnosticados assumem forma severa e de que a taxa de letalidade da Covid-19 é próxima de 2%, não podemos simplesmente deixar a doença se espalhar na população. O sistema de saúde ficaria sobrecarregado a ponto de não poder atender todos os casos graves, não somente de coronavírus, mas também de outras enfermidades, aumentando o número de mortes.

Assim, a estratégia de esperar a imunidade se estabelecer na população teria um custo enorme de vidas humanas. Para que se tenha ideia dos números envolvidos, estimativas para uma situação assim, nos EUA, apontam para algo próximo de 2 milhões de mortes numa população de 327 milhões de pessoas. Esperar que no Brasil seja diferente, sem uma razão clara para tal, corresponde a uma aposta descabida.

É preciso agir. A discussão se dá atualmente sobre a extensão das medidas a serem tomadas, se mais suaves ou mais drásticas. No rol das mais suaves teríamos o isolamento de casos e distanciamento social voluntário. Medidas mais drásticas incluiriam distanciamento social de toda a população, isolamento compulsório, restrições a viagens, fechamento de comércios, escolas, universidades e locais de culto.

Um trabalho recente de Neil Ferguson e colaboradores sobre a situação no Reino Unido mostra que uma combinação de medidas suaves de mitigação faria cair o número de mortes pela metade, o que ainda é catastrófico. Medidas drásticas teriam que ser implementadas para baixar mais consideravelmente o números de mortes e evitar a sobrecarga da rede hospitalar.

Por outro lado, medidas muito drásticas dificilmente poderão ser mantidas por muitos meses. Os fardos econômico e psicológico seriam insuportáveis. Ademais, com a população sem imunidade, após a suspensão das medidas haveria novo surto da Covid-19. Isso aponta para a necessidade de intervenções drásticas por períodos suportáveis, intercaladas com fases de mitigação moderada —o que prefigura uma longa batalha contra a epidemia.

Nenhum de nós, onde quer que more, é um mero espectador. É preciso tomar medidas mesmo em locais ainda sem casos confirmados, já que a doença se propaga muito rápido, sendo transmissível já na fase pré-sintomática.

Uma educação pelo vírus: somos todos igualmente responsáveis perante a ele. Precisamos nos encarar uns aos outros como iguais, membros de uma mesma comunidade. Isso é essencial para promover a solidariedade entre nós e garantir a adesão de todos e todas às medidas que virão a ser adotadas.

A nação brasileira se depara com um desafio que jamais enfrentou. São tempos excepcionais que demandam medidas excepcionais.

Caroline Franco

Doutoranda no Instituto de Física Teórica da Unesp

Renato M. Coutinho

Professor da UFABC

Roberto A. Kraenkel

Pesquisador do Instituto de Física Teórica da Unesp e estudioso do comportamento de epidemias

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