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Miguel Srougi

Coronavírus no Brasil: a pandemia e os pandemônios

Sinto uma aflição insuportável com o que poderá acontecer no país

Se havia alguma dúvida, ela não existe mais. Dentro de três semanas muitos brasileiros que hoje perambulam suavemente pelas nossas ruas morrerão pelo novo coronavírus. Isso ocorrerá junto com o crescimento inescapável e exponencial da transmissão do vírus por toda a nação.

Para aqueles que ainda julgam que a pandemia é mera “fantasia, alimentada pela grande mídia”, sugiro uma visita às notícias que nossas telinhas insistem em nos expor impiedosamente.

O médico Miguel Srougi, professor titular de Urologia da Faculdade de Medicina da USP - Bruno Poletti - 18.jun.15/Folhapress

Em primeiro lugar, foi reconhecida uma assustadora capacidade de disseminação da Covid-19. De acordo com a Universidade de Sheffield, na Inglaterra, cada paciente infectado transmite o vírus para mais de oito contatos —e não apenas dois ou três, como inicialmente imaginado.

Isso explica porque em fevereiro, quando a pandemia se espraiou pelo mundo, o número total de casos registrados saltou de 100 para cerca de 40 mil em menos de um mês. Como consequência, morreram até o momento mais de 7.000 adultos em cerca de 50 países. Desastre que não poupará os brasileiros nas próximas semanas que, além do risco de ter vida ceifada, perderão postos de trabalho, afundarão no caos social decorrente e padecerão com o colapso iminente da economia da nação, de profundidade e duração imprevisíveis.

Não bastasse isso, a OMS reconheceu a existência de uma pandemia, e não simples epidemia pelo coronavírus, situação tenebrosa na qual uma infecção dissemina-se pelo planeta e não pode mais ser eliminada, mas apenas atenuada na sua abrangência e gravidade.

Inquietas com a ameaça emergente e sem ainda contar com vacinas redentoras, autoridades sanitárias ao redor do mundo passaram a implementar medidas para controlar a pandemia. Numa primeira intervenção, disseminaram campanhas de informação e regras de comportamento, como o distanciamento social (afastamento físico, proibição de aglomerações, identificação e isolamento dos pacientes infectados) e de higiene pessoal (máscaras, desinfecção do corpo). Logo se percebeu que essas ações retardavam a transmissão do vírus, mas eram incapazes de abolir a explosão da Covid-19.

Outros países, apoiados por experiências passadas, foram além e instituíram a estratégia reconhecida como “lockdown” —ações radicais nas quais as cidades são totalmente bloqueadas. Impõe-se quarentena compulsória para todos os cidadãos, proíbem-se reuniões ou eventos de quaisquer natureza e escolas, lojas e empresas são fechadas, permanecendo abertas apenas farmácias, mercearias e serviços de saúde.

Adotando essa tática e disponibilizando aos infectados elevado número de leitos hospitalares, a cidade de Wuhan, na China, e países como Hong Kong, Cingapura e Japão reduziram drasticamente o crescimento espiral e a letalidade da enfermidade quando foram atingidos.

Apesar dessas observações alentadoras, sinto uma aflição insuportável quando imagino o que poderá acontecer com o Brasil logo mais. Apesar de contar com autoridades de saúde decentes, competentes e comprometidas, desconfio que áreas imensas da nação serão devastadas pelo novo coronavírus, que se sentirá à vontade para evoluir num país esfrangalhado pela desigualdade e pelo abandono, habitado por uma multidão de pessoas boas e resignadas, sem condições de expressar indignação ou usufruir dos seus direitos. Pior ainda, dirigidos por governantes irresponsáveis, desprovidos de compaixão e incapazes de prover dignidade à existência humana.

Enfim, autoridades que não compreendem que suas posições só foram obtidas por deferência da nação brasileira, que colocou com fé e esperança o seu destino em suas mãos. Lembrando Chico, para terminar a infinita aflição.

Miguel Srougi

Professor titular de Urologia da Faculdade de Medicina da USP, pós-graduado em urologia pela Universidade Harvard e presidente do conselho do Instituto ‘Criança é Vida’

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