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Felipe Nunes

Dilema falso e perigoso

A sociedade permitirá que o governante decida quem deve morrer ou viver?

Felipe Nunes

Que estranho caminho enveredamos nós, brasileiros, diante da tragédia mundial do coronavírus. Enquanto se contam mortos e contaminados, para mais ou para menos, as autoridades responsáveis por proteger a população discutem se devem privilegiar a saúde ou a economia. Este é um falso dilema. Não é possível escolher entre um ou outro porque os dois são interdependentes. Não há saúde sem economia, mas também não há como nem razão para se preservar todo o sistema econômico enquanto a população definha devido à pandemia.

A situação atual nos impõe enfrentar o debate civilizatório que se explicita no dilema “isolamento social” x “isolamento seletivo”. A sociedade permitirá que o governante decida quem deve morrer e quem deve sobreviver na pandemia? O “risco da morte” será democraticamente administrado, por assim dizer, ou vamos praticar a eugenia nos moldes da Alemanha nazista? A escolha de agora é uma batalha decisiva, cujo resultado deve definir o rumo da norma civilizatória no Brasil.

Felipe Nunes -  diretor da Quaest Pesquisa & Consultoria e professor de ciência política na UFMG.
O professor e cientista político Felipe Nunes - Divulgação

A solução, como sempre, passa pela responsabilidade política e pelo bom senso. As duas coisas, no entanto, parece que também entraram em quarentena —e na pior hora possível. O governo federal, que deveria coordenar e comandar as ações de combate a essa grave emergência, age de forma esquizofrênica. Enquanto o ministro da Saúde segue as orientações da OMS e sugere a manutenção do isolamento, o presidente fala em “gripezinha”, propõe que voltemos para as ruas e faz pronunciamentos para se eximir de qualquer custo político. Os governadores, por sua vez, diante dos sinais trocados do Planalto, partiram para ações semicoordenadas, fazendo frente ao Planalto, em uma queda de braço que pode ser arriscada.

As ações e decisões tomadas nos últimos dias nas esferas municipais, estaduais e federal formam um conjunto que poderiam apontar para uma composição sensata para atender tanto a questão econômica quanto a preservação da saúde da população.

O governo já tem um plano de R$ 40 bilhões para salvar microempresas, com o financiamento da folha de pagamentos. O Congresso, ao mesmo tempo, aprovou ajuda de até R$ 1.200 para pessoas de baixa renda durante a quarentena. Há espaço, portanto, para que todos se sentem à mesa e anunciem uma medida tranquilizadora que componha a necessidade de minimizar os estragos na economia e nas finanças individuais e preservar a saúde das pessoas. É hora de mostrar para a população que o negócio é ficar em casa e que daqui a mais alguns dias talvez já se possa sair do confinamento total.

Mas, infelizmente, isso parece que não vai acontecer.

Na queda de braço política que se instalou, o presidente Jair Bolsonaro tem a seu favor o tempo. Quanto mais o isolamento se fizer necessário, mais a narrativa dele vai ser eficaz: temos que voltar ao normal! Quando a economia estiver aos frangalhos, ele vai poder dizer: "Tá vendo, eu avisei que os governadores estavam errados e exageraram na dose”. Bolsonaro aposta tanto nisso que acaba de lançar uma nova campanha com o slogan “O Brasil não pode parar”. Como se não fosse seu ministro da Saúde a voz que todos os dias manda todo mundo para casa, obedecendo recomendações da OMS.

Já os governadores apostam que o isolamento será capaz de conter o surto, e que o grupo seguidor fiel do presidente sofrerá com a doença por não seguir a recomendação do presidente e acabará por abandoná-lo quando os fatos se impuserem. Doria, Witzel e cia. esperam mostrar para a parte pragmática da base bolsonarista que Bolsonaro é irresponsável e inconsequente e, assim, não é capaz de oferecer soluções concretas para a economia. Desta forma, os governadores buscam "dividir para conquistar", já projetando uma possível disputa em 2022.

Seja de quem for a vitória nessa disputa insana, quem sairá perdendo é a população. As pessoas aflitas em casa, em quarentena, começam a se dividir e uma parte já pensa, com razão, em sair para rua como se tudo estivesse normal, incentivando um desastre sanitário. A população gigante de trabalhadores informais e donos de pequenos negócios, que não têm fluxo de caixa para ficar muito tempo parados, também já não sabe o que fazer.

Diante desse quadro de incapacidade de coordenação política, infelizmente, a falsa dicotomia poderá vir a ser resolvida pelo caos tanto na saúde quanto na economia.

Felipe Nunes

Diretor da Quaest Pesquisa & Consultoria e professor de ciência política na UFMG

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