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André Trindade

Manual de convivência na selva (do lar)

Adultos, adolescentes, crianças e bebês juntos em tempos de reclusão

André Trindade

A situação de confinamento em tempos de coronavírus exige adaptações. Sugiro que se crie uma tabela de horários em uma cartolina afixada numa parede, onde todos possam ver.

É importante estabelecer os horários das refeições, com pelo menos uma delas em família. Não é indicado cada um comer em um momento, nem em frente às telas. Na tabela também entram tarefas como varrer a casa, regar plantas, lavar a louça. A ideia de cooperação é indispensável!

André Trindade - Psicoterapeuta e educador, é autor de “Gestos de Cuidado, Gestos de Amor” e “Mapas do Corpo” (Summus Editorial)
O psicoterapeuta e educador André Trindade - Divulgação

É preciso que os pais larguem seus celulares para interagir com os filhos. Que silenciem os grupos de WhatsApp. A atitude exemplar do adulto é fundamental. É preciso também que crianças e adolescentes desgrudem os olhos das telas. A tabela na parede vai ajudar nos momentos de “desligar-se” dos eletrônicos.

Crianças e adolescentes precisarão da participação dos adultos para muitas iniciativas. A maioria delas estava “terceirizada” em rotinas nas escolas e por agendas preenchidas de atividades. Nossas crianças não foram preparadas para se autogerirem.

Os adultos também precisam de tempo para suas atividades de trabalho e pessoais. Sugiro que esses “tempos” estejam indicado na tabela e que os filhos aprendam a respeitar esses horários.
Há que se flexibilizar o uso dos eletrônicos para crianças e adolescentes. Eles vão querer jogar ainda mais e se comunicar com os amigos virtualmente. Porém, será fundamental restringir os excessos de uso.

A Organização Mundial de Saúde recomenda que crianças com menos de dois anos fiquem longe das telas. Acima dessa idade, o uso dos eletrônicos seria entre duas e três horas por dia.
Há muita expectativa para saber como será a escola a distância. Cada escola está construindo uma pedagogia própria, temos que acompanhar o andamento das propostas.

Brincar livre, longe das telas, deve ocupar cerca de duas horas do dia, divididas entre manhã e tarde. Isso inclui desenhar, recortar e colar, escrever histórias em quadrinhos, montar peças de teatro. Música e dança são bem-vindas!

As crianças terão que se adaptar a brincar dentro dos apartamentos. Uma dica é substituir bolas de futebol por bexigas, e preparar a casa retirando os enfeites delicados. Vale aí o futebol no corredor, o frescobol na lavanderia, o basquete de bolas de papel no lixinho. A leitura deve ter um caráter lúdico, e é interessante separar um tempo próprio para isso. Fica difícil manter a concentração na leitura enquanto o irmão joga bola no corredor.

Para os adolescentes, o confinamento pode ser mais difícil. Os enfrentamentos devem aumentar nesse período, e sugiro aos pais ouvirem suas opiniões e incluí-los nas discussões dos temas atuais. Também precisam ser incluídos na tabela de horários, senão correm o risco de trocar o dia pela noite. É importante respeitar o tempo em que ficam fechados em seus quartos, negociando com eles os períodos de convivência.

Para crianças e bebês, o colo e o carinho do adulto cuidador propiciam as trocas de afeto, além de aplacar os medos e as angústias.

Porém, estudos sobre o coronavírus indicam que a forma mais importante de transmissão se dá através das mucosas. Quando falamos com alguém sem guardar a devida distância (2,5 metros), há a chance de trocas de salivas pelo lançamento de gotículas, risco que aumenta com espirros e tosses. Por mais difícil que seja, os idosos devem estar isolados do contato com as crianças.

No convívio entre mães, pais e filhos, mesmo não apresentando sintomas e estando devidamente higienizados, não deveríamos falar pertinho um do outro e deveríamos evitar os beijos na face. Na hora de dormir, o adulto pode ler histórias sentado na ponta da cama, enquanto realiza uma massagem nos pés da criança.

A SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) se posicionou, no último dia 13 de março, favorável à amamentação para mães portadoras da Covid-19. Os principais artigos sobre o tema indicam que os benefícios da amamentação são superiores aos riscos de transmissão do novo vírus.

Para todos aqueles com sintomas de gripe, o uso de máscaras é recomendado. É importante lembrar que novas descobertas sobre a Covid-19 chegam a cada momento, levando a novas recomendações.

André Trindade

Psicoterapeuta e educador, é autor de “Gestos de Cuidado, Gestos de Amor” e “Mapas do Corpo” (Summus Editorial)

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