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Catarina Rochamonte

O coronavírus e a escolha de Bolsonaro

Covarde é quem relativiza a vida de velhos e doentes para salvaguardar a economia

Os dilemas éticos são situações existenciais complexas que nos induzem a difíceis escolhas e que podem ser considerados moralmente corretos de um ponto de vista e de outro que lhe é oposto. O Brasil, neste exato momento, vive um dilema ético? Talvez sim.

Mas ele é de mais fácil solução do que aquele que talvez sobrevenha devido a uma falsa maturação na resposta dada pelo presidente da República em seu pronunciamento oficial de terça-feira (24), no qual criticou o isolamento social requerido pelas autoridades sanitárias, desfazendo em poucos minutos todo um trabalho de conscientização da sociedade nesse sentido.

A professora Catarina Rochamonte, vice-presidente do Instituto Liberal do Nordeste - Reinaldo Canato - 19.fev.20/Folhapress

O que quero dizer é que resolver o dilema ético entre sair para trabalhar no pico de contaminação ou se resguardar cumprindo as restrições recomendadas é menos traumático do que ter que resolver o dilema de escolher quem terá direito ou não a respiradores, tal como está ocorrendo na Itália.

Se a epidemia vai quebrar a economia com ou sem quarentena, é melhor preservar vidas cumprindo-a ou preservar a economia perdendo-as? Se há nisso um dilema ético trata-se, a meu ver, de um confronto entre uma perspectiva ética deontológica e uma perspectiva ética utilitarista. E eu opto pela primeira, segundo a qual a vida humana tem valor absoluto e só pode ser relativizada em nome de um ideal que a transcenda.

Só quem pode relativizá-la é o próprio indivíduo que escolhe, por conta própria, arriscá-la ou não por um valor maior, como o caso de alguém que dá a vida por outrem, que se deixa morrer por um ideal ou que vai a uma guerra sabendo que pode não retornar. No caso em pauta, os que se enquadram nesse contexto são médicos, enfermeiros, policiais, lixeiros, vendedores de supermercado e os demais que estão desempenhando as atividades essenciais que precisam continuar de qualquer forma.

Os outros —os indivíduos jovens, fortes e saudáveis que, mesmo não desempenhando atividades essenciais, querem sair para trabalhar (ou passear)—, neste momento não são soldados em campo de batalha, mas vetores de transmissão do vírus para os mais vulneráveis. Quem está em casa, portanto, não é covarde. Covarde é quem, estando à frente de uma nação para guiá-la, escolhe caprichosamente relativizar a vida de velhos e doentes para salvaguardar a economia.

Algo que também precisaria ser trazido à reflexão é a postura daqueles que teimam em defender um homem mesmo que esse homem desdenhe, em meio a uma terrível pandemia, das recomendações médicas mundialmente corroboradas. No apoio inconteste, resistente, persistente e incondicional ao presidente da República retrata-se o fenômeno da heteronomia, ou seja, a menoridade intelectual de que falava Kant, a incapacidade de autorreflexão, autocrítica, autonomia. Fenômeno semelhante ao lulismo, o bolsonarismo é a recusa da maturidade intelectual na qual a consciência responde apenas a ela mesma, e não a uma ideia externa personificada em uma autoridade.

O ser humano é inventivo, é capaz, é criador. Depois que a pandemia passar, ele vai encontrar meios de solucionar a crise econômica, seja por descobertas tecnológicas, por inovações na área política, na gestão ou simplesmente pela piedade e pela misericórdia divina, que não nos deixará desamparados, principalmente se tentarmos agir corretamente. Os mortos, porém, não levantam. E a dor de perder um ente querido sem sequer poder velá-lo é maior do que a dor de fechar uma loja, falir a empresa ou perder ações na Bolsa de Valores.

Catarina Rochamonte

Doutora em Filosofia, professora do curso de Pós-Graduação em Escola Austríaca do Instituto Mises Brasil, vice-presidente do Instituto Liberal do Nordeste e autora de 'Um Olhar Liberal-Conservador sobre os Dias Atuais' (ed.Chiado)

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