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Luiz Guilherme Piva

O vício circular dos planos de saúde

Inibidores, como as coparticipações, os tornam menos atrativos aos saudáveis

No seu modelo de negócio, que produz restrições crescentes para os beneficiários mais vulneráveis, os planos de saúde, segundo reportagem publicada nesta Folha em 29 de novembro último, propõem: a) planos segmentados —só com consultas e exames, por exemplo; b) franquia anual; c) liberdade de reajuste de preços; d) aumentos maiores para idosos; e) retirada rápida de procedimentos obrigatórios; e f) pagamento aos profissionais por resultados.

A lógica dos planos tem sido mais assegurar seus ganhos do que atender bem à clientela, o que os lança numa rota perversa para si e para o público necessitado. Essa questão se deve a dois processos conjugados, conhecidos como “seleção adversa” e “risco moral”.

Idosos em centro comunitário - Fernando Donasci - 13.mar.18/Folhapress

Os convênios praticam preços altos para bloquear pessoas carentes —que seriam propensas, segundo os gestores, a usar mais o serviço. Calcule o preço médio per capita: arrecadam R$ 210 bilhões por ano, para atender a 45 milhões de beneficiários. “Mas a média engana!” Então faça um orçamento.

Assim, jovens e saudáveis tendem a não entrar, e idosos e adoentados, que não dispõem da “soberania do consumidor” para negociar valores e até para optar por não entrar, ficam cativos. Daí que a sinistralidade seja maior e os procedimentos, mais caros. Os planos respondem elevando preços, o que aumenta a proporção dos “dispendiosos” —e, de novo, os planos majoram preços.

Talvez os planos sonhem em ter apenas clientes jovens e saudáveis. (Seguros de vida também preferem que todos paguem a vida inteira e não morram —ou que, logo antes de morrer, abandonem o seguro.) Mas produzem o inverso: pessoas com mais de 29 anos são 60% dos beneficiários, contra 50% da população em geral. É este contingente que os planos de saúde prefeririam expulsar, mas que acabam retendo, com mais custos.

Os planos adotam inibidores (similares às franquias dos carros), como as coparticipações, para evitar —segundo seus gestores— que, à falta de penalidade, os beneficiários venham a “abusar” do serviço. Mas isso os torna ainda menos atrativos para os saudáveis.

Na outra ponta, os planos pagam pouco para os conveniados —que, em reação, demandam mais procedimentos para melhorar sua receita, com mais despesas para os planos. E, por fim, os convênios não reembolsam o SUS pelo atendimento a seus clientes (dívida de R$ 1,7 bilhão em janeiro, segundo o próprio SUS).

O contra-argumento de que esses processos “não são bem assim” porque hoje os clientes são majoritariamente empresariais (81%) na verdade explicita a lógica acima, pelo seguinte: a) são os próprios planos que rejeitam e prejudicam clientes não vinculados a pessoas jurídicas; b) expressivos 9 milhões de clientes são individuais; c) os clientes de planos corporativos passam por análise etária e de saúde e sujeitam-se a preços, reajustes e contrapartidas análogos aos individuais; e d) não fosse assim, por que os planos apresentariam, para todos os tipos de clientes, as propostas que abrem este artigo?

Supondo que se adotem suas propostas, os convênios poderão certamente ampliar seus ganhos. Mas à custa de piorar o acesso à saúde dos beneficiários mais idosos e necessitados e tornar sua vida muito mais cara —a ponto de eles talvez terem que cortar outras despesas para bancar seus tratamentos.

O seguro de vida, por exemplo.

Luiz Guilherme Piva

Economista, mestre (UFMG) e doutor (USP) em ciência política e autor de ‘Ladrilhadores e Semeadores’ (Editora 34) e ‘A Miséria da Economia e da Política’ (Manole)

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