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Juca de Oliveira

Regina Duarte será capaz de ampliar o diálogo do governo com a classe artística? SIM

Que importa se ela é de direita? Conhece e tem amor pela arte

Embora, a meu ver, a função da Regina Duarte na Secretaria da Cultura não seja a de “ampliar o diálogo do governo com a classe artística”, isso provavelmente acontecerá. Porque Regina é uma operária da arte e da cultura brasileiras, grande atriz, sensível e com objetivos muito claros e determinados.

Estreou na televisão e no teatro em 1965. Ficamos amigos quando tive o privilégio de ver Regina no palco em “A Megera Domada”, de Shakespeare, sob direção de Antunes Filho. Era a sua estreia no teatro —um enorme sucesso, ruidosamente comentado pela imprensa e pelo meio artístico daquela época.

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O ator e dramaturgo Juca de Oliveira em sua casa, em São Paulo - Karime Xavier - 8.out.19/Folhapress

Ali estava, sem dúvida nenhuma, uma menina de 18 anos de excepcional talento, o que veio se comprovando pelo seu trabalho ao longo dos últimos 55 anos. Seu carisma pessoal, o fascínio exercido sobre um público fiel por décadas, acabou lhe conferindo o afetuoso título de “Namoradinha do Brasil”.

Foi a condecoração de milhões de fãs por ela se manter durante tantos anos no foco das grandes e bem-sucedidas produções de telenovelas, filmes e peças teatrais.

Inteligente, culta, simpática, muitíssimo bem-humorada, absolutamente fiel aos seus amigos e colegas. Tais qualidades seriam, enfim, o limite máximo que se poderia esperar de uma atriz de enorme talento.

Mas não para Regina, que vai muito além. Porque há nela também uma personalidade política e constante preocupação com o destino político e social do país. Desde muito jovem, espontaneamente, escolheu, além do teatro, da televisão e do cinema, participar de todos os grandes movimentos políticos pela liberdade, democracia e elevação cultural.

Para a nossa surpresa revelou-se também uma precoce oradora, discursando nas grandes concentrações públicas, pela democracia e pelos direitos do artista e do cidadão. Tive o privilégio de participar da campanha das Diretas Já, em 1983, e presenciar seu contagiante entusiasmo nos grandes eventos da praça da Sé.

Testemunhei também inúmeros e brilhantes discursos de Regina nas grandes concentrações políticas da avenida Paulista. Há algum tempo, ao nos encontrarmos por acaso num evento cultural, não resisti e lhe disse: “Regina, querida, permita-me, mas você não tem apenas vocação para a política, você tem também talento, menina! Se fosse você começaria candidatando-me nas próximas eleições para a Assembleia Legislativa ou para o Senado. Nós precisamos de você na política!”.

Ela riu muito, não disse sim, mas também não disse não. E agora não é que Regina é escolhida pelo presidente da República para assumir a Secretaria de Cultura? Na minha opinião, a melhor escolha. Repetindo: Regina é representativa da classe, tem enorme popularidade, boa vontade política, uma visão ampla do panorama cultural do país. Inteligente, sensível, sabe o que quer e, sem dúvida, não está apenas aceitando o cargo por mera aventura.

Aceitou, sim, por claríssima determinação, uma meta a ser atingida —e que tem tudo a ver com a sua personalidade e paixão de ativista social. Ela na secretaria é um bem para a cultura e uma alegria para nós, artistas.

“Mas ela é de direita!”, dirão alguns. Mas que importância tem isso? Nós, atrizes e atores, nascemos da religiosidade num templo grego lá pelos 550 anos a.C com o sacerdote Téspis, o primeiro ator da história! 
Apesar de nosso trabalho artístico ter perdido aquele caráter litúrgico, sua função social continua a mesma: melhorar o homem, torná-lo mais generoso, mais afetivo, mais íntegro e, sobretudo, mais solidário. Portanto, não importa se o secretário é liberal, de centro, de esquerda ou de direita.

Importa que ele seja competente, tenha consciência da responsabilidade, conhecimento do trabalho, amor pelo país, pela arte e pela cultura, a exemplo de Regina Duarte. Tenho certeza de que em pouco tempo ela terá o apoio de todos nós.

Juca de Oliveira

Ator e dramaturgo

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