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Fernanda Campagnucci e Amanda Rossi

Covid-19: falta transparência ao estado de São Paulo

Sombrio é deixar de publicar os dados negativos da pandemia

Fernanda Campagnucci Amanda Rossi

É precisa a afirmação de que comunicar com transparência e agilidade salva vidas, como escreveram nesta Folha Vanderlei França e Ricardo Liguori, coordenadores de comunicação institucional do estado de São Paulo, na última quinta-feira (15). Seria muito importante para o combate à Covid-19, no entanto, que as palavras correspondessem às ações. Por respeito à verdade, se faz necessária esta réplica.

Epicentro brasileiro da pandemia, com 40% das mortes confirmadas no país, São Paulo é sede de prestigiadas universidades e conta com muitos dos mais qualificados pesquisadores no país. Seria de se esperar que, em tal posição, o estado liderasse a divulgação de dados sobre a doença. Porém, caminha na direção contrária. No índice de transparência sobre a pandemia elaborado pela Open Knowledge Brasil (OKBR), São Paulo perdeu pontos por deixar de divulgar dados básicos e está atrás de outros dez estados.

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O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), durante coletiva de imprensa sobre os efeitos da Covid-19 - 17.abr.20/Governo do Estado de São Paulo

Diariamente, os boletins epidemiológicos paulistas apresentam o número de casos e de óbitos por cidade. É pouco. Não são divulgados os bairros em que a incidência de Covid-19 é maior, a taxa de ocupação dos leitos nem o número de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave —utilizado para estimar a subnotificação.

Em Pernambuco e no Ceará, essas informações são publicadas em um painel na internet, atualizado diariamente. O Espírito Santo disponibiliza microdados com 27 indicadores para cada caso, como sintomas, comorbidades, faixa etária, raça/cor e bairro de domicílio.

Há evidências de que a falta de informações em São Paulo não resulta da ausência de dados, mas de estratégia para impedir sua divulgação. Entre 2 e 8 de abril, o Centro de Vigilância Epidemiológica Prof. Alexandre Vranjac publicou diariamente boletins com dados mais completos, como o mapeamento de todos os óbitos e o número de testes em processo de análise no Instituto Adolfo Lutz.

Em 9 de abril, duas reportagens publicaram parte dessas informações. Uma abordou como a epidemia estava avançando rapidamente para a periferia da capital paulista. A outra mostrou que 30 mil exames estavam à espera de resultado. Coincidência ou não, neste mesmo dia os boletins diários deixaram de ser publicados. Questionada, a Secretaria de Estado da Saúde não explicou o motivo.

O prejuízo não é só dos jornalistas e seu dever de informar. É também de cientistas de diferentes áreas do conhecimento, que aguardam mais dados para ajudar a compreender a doença. Para citar apenas dois deles: Tadeu Masano, professor da Fundação Getulio Vargas, especialista em informações geoespaciais, e Domingos Alves, professor da Faculdade de Medicina da USP.

Acima de tudo, perde a sociedade, que deixa de ter meios de usar as informações para se autoproteger.

Fernanda Campagnucci

Jornalista, é diretora-executiva da Open Knowledge Brasil

Amanda Rossi

Jornalista, é diretora da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji)

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