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Carlos Costa

O futuro do trabalho: visão em paralaxe

Momento é propício para a gestação de novas ideias e quebra de paradigmas

Carlos Costa

Heráclito, o filósofo grego que não tomava banho duas vezes no mesmo rio, estaria muito à vontade com as mudanças radicais que tropeçamos a cada temporada. Meia década atrás, numa entrevista com o escritor Alberto Manguel, então morando no antigo presbitério (a casa do padre) de Mondion, um vilarejo francês, ele falou sobre o futuro da leitura. Um pequeno chip implantado no crânio permitiria amplo acesso a livros e referências. Lembrei do suporte de plástico semirrígido com uma antena: era o cavalo de batalha do Thomaz Souto Corrêa, vice-presidente da Editora Abril, nas palestras que dava sobre o futuro da mídia impressa.

Vivemos agora um período de isolamento de quarentena, momento propício para a gestação de novas ideias e quebra de paradigmas. Numa visão deslocada, como em paralaxe, é possível perceber muitas coisas. Um exemplo é o encurtamento entre uma pandemia e outra. Se a gripe bizantina do século 5 pegou de surpresa o governo de Justiniano e a exuberante Bizâncio (tentaram chamá-la de nova capital, “neapolis”, nome que pegou no caso da cidade italiana), nove séculos depois a peste negra matou cerca de 50% da população do planeta (seria algo entre 30% e 60%; o Datafolha não existia na época). Levou mais de 200 anos para a população da Europa voltar aos índices populacionais de antes da pandemia. Com surtos esporádicos da febre, algumas cidades, como Florença, só voltam aos patamares de antes da peste negra no século 19. Siena, ali ao lado, até hoje não tem a população do século 13.

Carlos Costa Professor do programa de mestrado stricto sensu da Faculdade Cásper Líbero (SP)
O professor Carlos Costa, da Faculdade Cásper Líbero (SP) - Divulgação

A terceira grande pandemia levou apenas 200 anos para explodir: foi a peste bubônica, no final do século 16. Londres foi palco de uma sucessão de surtos, nos anos entre 1563 e 1665, reduzindo em 30% sua população. Nesse terceiro momento ocorre a multiplicação dos focos. Os surtos tardios na Europa central incluíram a praga italiana de 1629-1631, associada a movimentos de tropas durante a Guerra dos 30 Anos. A partir daí, foi algo como “uma peste pra chamar de minha”: Noruega (1348-1350), morte de 60% da população do país; Viena, em 1679 e etc.

E onde entra o mundo do trabalho? Todas essas pestes e outros tantos que não cabe falar aqui provocaram quebra de paradigmas. Galileu Galilei e o heliocentrismo (quarentena da peste negra), Isaac Newton e a lei da gravidade (isolamento da bubônica). A Covid-19 já está quebrando muitos paradigmas. O home office; a valorização da comida caseira; a substituição das quinquilharias made in China por artesanato local; a valorização do home care (tratamento em casa para evitar contaminação hospitalar); as sessões de psicanálise pela internet; a lista é grande. Pense nisso. E nas chances de trabalho fora dos modelos tradicionais. O próprio fundo partidário, essa espoliação vergonhosa do dinheiro público, foi para o ralo com a Covid-19.

O futuro do mundo do trabalho pode ser visto como o copo na canção de Gilberto Gil: meio cheio ou meio vazio. Aposto no meio cheio e acredito na recuperação do trabalho digno (motivo da criação, em 1909, da Organização Mundial do Trabalho), inspirada na encíclica “Rerum Novarum” (sobre as coisas novas, a condição dos operários), escrita pelo papa Leão 13 em maio de 1891.

Nesse futuro que começamos agora (e com ele a sociedade 5.0) não haverá lugar para a exploração do trabalho (leia-se Rappi, Uber Eats, Ifood). Os jornais ganharão prestígio (cansaço das fake news). E o mundo encontrará equilíbrio ecológico e tantos sonhos mais, como o jornal de plástico do Thomaz.

A chave para isso? Não dê atenção a salvadores da pátria. Não vote em quem promete mudar tudo após quase três décadas de enrolação como deputado. Nem nos meninos com cabelo brilhantina que se apresentam como “a diferença”. Esta está nas mãos de cada um de nós.

Carlos Costa

Professor do programa de mestrado stricto sensu da Faculdade Cásper Líbero (SP)

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