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Flávio Rocha

Brasil 200, fica aqui a minha despedida

Instituto viu-se recentemente envolvido no debate do cotidiano da política

A história não se desdobra no vácuo. Seus atores agem sempre em determinado contexto político, social, econômico. Tudo tem o seu tempo, o tempo de começar e o tempo de terminar. Tais reflexões me vêm à mente neste momento em que faço um balanço do papel desempenhado pelo movimento Brasil 200, do qual fui um dos fundadores.

Tudo começou em 2018, ainda com as candidaturas à Presidência da República incertas, quando um grupo de empresários se juntou para dar forma a uma iniciativa que viabilizasse uma alternativa conservadora e liberal para o Palácio do Planalto.

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O empresário Flávio Rocha, da Riachuelo - Marcus Leoni - 28.jun.19/Folhapress

O quadro partidário estava embaralhado, pulverizado, com bons candidatos que, não obstante, não desfrutavam da densidade eleitoral necessária para disputar com chances reais o pleito mais importante do país.

Havia candidatos liberais na economia. E havia candidatos conservadores nos costumes. O que faltava era alguém que unisse as duas vertentes que, mundo afora, na Europa e nos Estados Unidos, estavam desenhando o futuro das nações.

Orgulho-me de ter integrado um grupo de empresários, executivos, economistas e intelectuais que se antecipou à tendência que se revelaria vencedora.

A força das ideias que sempre defendemos —baseadas no binômio democracia e livre mercado— foi responsável pelo rastilho que incendiou as redes sociais, levando para milhões de pessoas a denúncia de um marxismo cultural que tentava corroer por dentro, e atingindo as famílias, os pilares da liberdade e do capitalismo.

Àquela altura, após o governo reformista do presidente Michel Temer, o risco de um retrocesso ideológico não era desprezível. Com o apoio aguerrido dos integrantes do Brasil 200, no entanto, viramos essa página da história, em sintonia com a vontade da grande maioria dos brasileiros.

O nome Brasil 200 remete ao bicentenário da Independência do Brasil, a ser comemorado em 2022. Ao assim batizá-lo, quisemos sublinhar a importância da soberania nacional. Defendemos uma pauta econômica que desmontasse o gigantismo estatal que tolhe a iniciativa privada com seu cipoal de regras, burocracias e impostos. Se adotada, tal agenda colocaria o Brasil em condições privilegiadas de competição por ocasião do término do atual mandato, que coincide com o aniversário da Independência.

Mais tarde, o movimento ganhou estrutura formal e se transformou no Instituto Brasil 200. Originalmente um “think tank” centrado em análises macro sobre o futuro do capitalismo e das nações, o instituto viu-se recentemente envolvido no debate do cotidiano da política.

Talvez seja apenas natural que tal diretriz tenha prevalecido. Os tempos são outros. Não cabe a mim julgar decisões tomadas pela nova geração que assumiu a direção do instituto. Mas sinto que já não poderia contribuir com o mesmo empenho que tive no passado. É por isso que agora confirmo meu desligamento do Brasil 200.

Saio com a sensação do dever cumprido. Dirigi-me a meus pares com franqueza e destemor ao denunciar a figura do empresário-moita, aquele que não quer se comprometer e fica satisfeito em comer as migalhas que caem das mesas oficiais.

Acredito ter contribuído para delimitar um espaço vitorioso que tirou o Brasil da beira do precipício. Nada do que fizemos foi em vão. Nesta despedida, quero agradecer aos que estiveram comigo desde o início, quando as chances de vitória ainda mal podiam ser vislumbradas. A todos vocês que compartilharam de minhas convicções, meu muito obrigado.

Flávio Rocha

Presidente do conselho de administração do grupo Guararapes, controlador da Riachuelo

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