Descrição de chapéu
Kátia Abreu

Chega de miopia institucional

Está havendo independência demais e harmonia de menos entre os Poderes

Nós passamos, o Brasil fica. É assim que está certo. O presidente Jair Bolsonaro pode ter todos os defeitos do mundo, assim como o mundo pode ver todos os defeitos no presidente Jair Bolsonaro. Mas o que nós não podemos mais, como nação, é ficarmos hipnotizados única e exclusivamente com as mazelas do atual governo. Como na passagem bíblica, está na hora de fazermos como Jesus e escrevermos na terra, em vez de atirarmos pedras.

Não estou pregando um habeas corpus preventivo para o presidente da República ou uma espécie de salvo-conduto para que ele possa fazer o que quiser, do jeito que quiser. Acho, a rigor, que a primeira pedreira a ser demolida deveria ser a do Palácio do Planalto. Pedradas geram pedradas e chuvas de pedra servem apenas para trincar a harmonia entre os Poderes e, por conseguinte, a democracia.

A senadora Kátia Abreu (PP-TO), ex-ministra da Agricultura no governo Dilma Rousseff (PT) - Reinaldo Canato - 30.jan.20/Folhapress

Temos de cumprir o que determina o artigo 2º da Constituição: “independência e harmonia entre os Poderes”. Ali não está escrito que esses princípios são alternativos: não é independência ou harmonia. São os dois juntos. No entanto, está havendo independência demais e harmonia de menos. O resultado é que estamos, politicamente, praticando uma inconstitucionalidade no convívio entre os Poderes.

A impressão é que temos dois times de futebol no gramado que, em vez de jogar, se limitam às vaias recíprocas. Acontece que vaiar é prerrogativa da torcida. Os times devem jogar bonito e fazer gols. Do contrário, a torcida, decepcionada, pode descer da arquibancada e quebrar tudo. Temos de fazer gols no combate ao desemprego, no combate à fome, evitando mais mortes em consequência da Covid-19, evitar que as empresas fechem e combater o desalento e a desesperança.

Não há alternativa, os três Poderes têm de jogar o jogo. Que o presidente seja escrutinado, que o governo seja investigado pelos órgãos de controle, que a imprensa continue fazendo seu papel, mas o Brasil precisa que o poder político conduza um dos momentos mais difíceis de sua história. O presidente não pode ser culpado de todos os problemas do país, assim como não pode ser endeusado. Basta desta alienação coletiva.

No caso específico do Congresso, e do Senado, que tenho a honra e o privilégio de integrar, há mais pedras a tirar do caminho do que pedras a lançar na direção dos outros Poderes. E aqui louvo o papel de equilíbrio e ponderação com que vem exercendo sua função, desde o início, o presidente Davi Alcolumbre (DEM-AP). Tensionamentos inúteis não podem ser respondidos com tensionamentos igualmente inúteis. Isto não é política. A política deve ser exercida com sabedoria e ponderação.

O governo Bolsonaro aí está, e as instituições precisam trabalhar com ele. Apesar dele, acima dele. Por uma questão que me parece simples: pelo Brasil e pelo povo brasileiro. Temos um alvo que deve nos unir, muito além de nossas objeções: a desigualdade social imensa, exponencial, abissal, que vai se acentuar com a pandemia de Covid-19. A pandemia econômica, seguida da pandemia social, não pode provocar a comorbidade de uma pandemia política.

Temos de juntar todas as tendências em uma agenda de proteção social. Fala-se muito em redes sociais. Mas a única rede social que importa está aí para ser construída: a rede de proteção social. Não precisamos de um “Plano Marshall”. Para continuar na metáfora, precisamos de um “New Deal”. Precisamos, aqui e agora, investir no maior patrimônio do Brasil: os brasileiros.

Não faz sentido seguir nessa espécie de gincana destrutiva para mostrar quem pode jogar mais pedras. Isso sequer é difícil. Custoso é negociar consensos, construir mais pontes, mais pilares, mais muros de contenção. O presidente deve continuar sendo escrutinado sim. Mas a política não pode seguir sendo um Bolero de Ravel, de um tema só. O maior problema do país começa com “B” maiúsculo. Mas não o “B” de Bolsonaro. É o “B” de Brasil. Vamos cuidar do Brasil. Bolsonaro que se cuide.

Kátia Abreu

Senadora da República (PP-TO) desde 2007 e ex-ministra da Agricultura (2015-2016, governo Dilma)

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