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Mozart Neves Ramos

Com a pandemia, os alunos da rede pública deveriam ser aprovados automaticamente? SIM

Não podemos aumentar ainda mais as desigualdades do ensino

Como resultado da pandemia do novo coronavírus, da noite para o dia milhões de estudantes de todo o Brasil deixaram de ir à escola.

Em consequência, as instituições de ensino se viram na necessidade de oferecer um currículo online, incluindo tanto atividades síncronas como assíncronas.

O educador Mozart Neves Ramos no Fórum de Inovação Educativa, em São Paulo - Bruno Santos - 23.jun.16/Folhapress

A Covid-19 descortinou a enorme desigualdade educacional em nosso país. Milhares de estudantes não têm acesso a smartphones e à internet de boa qualidade, o que os impede de acompanhar as aulas por aplicativos, por exemplo.

Certamente, no retorno às aulas presenciais, os estudantes vão chegar com níveis de aprendizagem bastante díspares —e mesmo aqueles que melhor tiverem desenvolvido as aprendizagens esperadas nestes meses de pandemia chegarão abaixo do esperado.

Assim, este não é o ano para avaliar aquilo que tradicionalmente esperaríamos dos estudantes. Não vamos esperar que eles tenham, por exemplo, aprendido a estrutura das mitocôndrias.

Mas, certamente, este será o ano no qual os estudantes desenvolverão como nunca habilidades tais como abertura ao novo, cultura digital, criatividade e colaboração, entre outras, que são tão importantes para viver neste século 21.

Não ter desenvolvido as aprendizagens esperadas não deve ser motivo para reprovação escolar, pois a pandemia já vai provocar consequências muito graves nos campos social e econômico, como a redução da atividade econômica e o consequente aumento de desempregados, especialmente entre as famílias mais vulneráveis.

O risco de crescimento de abandono escolar é real, em particular entre os jovens de 15 a 17 anos. Em São Paulo, atualmente 26,5% dos jovens não concluem o ensino médio, e a evasão reduz em R$ 7 bilhões a remuneração de uma geração de jovens, custando à sociedade paulista cerca de R$ 17 bilhões por ano, segundo estudos do economista Ricardo Paes de Barros.

A saída não seria, por outro lado, uma aprovação automática sem levar em conta os eventuais déficits de aprendizagem —mas ter a capacidade de pensar e agir de outro modo neste ano afetado pela Covid-19.
Em primeiro lugar, é preciso fazer uma ampla avaliação diagnóstica dos estudantes quando do retorno às aulas presenciais —saber o que cada um aprendeu e desenvolveu ao longo desses meses de pandemia, e dar maior assistência àqueles que tiveram baixo aproveitamento, ou até nenhum, das aprendizagens básicas esperadas. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) pode ser um elemento importante para esse diagnóstico.

A esses estudantes, o contraturno deveria ser preferencialmente oferecido. Esses novos tempos nos empurra a pensar fora da caixa. Por que não pensar numa escola de tempo integral de atividades híbridas? Um dos turnos escolares se daria presencialmente, e o outro através de atividades não presenciais, mas ambas articuladas com o projeto pedagógico da escola.

Por fim, nas medidas necessárias para não deixar nenhum estudante para trás, é preciso alinhar os esforços deste ano atípico aos de 2021. Não consigo imaginar 2020, enquanto planejamento escolar, sem articulá-lo intimamente a 2021, inclusive para incorporar algumas das aprendizagens que não tiverem sido completamente desenvolvidas em 2020.

Precisamos ter bom senso, pois reprovar estudantes em um ano de pandemia significa aumentar ainda mais a crise social e econômica pela qual vamos passar. É hora de acolher nossos estudantes e professores com doçura e carinho no retorno às aulas.

Mozart Neves Ramos

Titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira do Instituto de Estudos Avançados da USP (Ribeirão Preto)

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