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Nise H. Yamaguchi

Muito cedo ou muito tarde?

É fundamental tratar precocemente os pacientes para evitar uma crise ainda maior

Nise H. Yamaguchi

Estamos há três meses em franca pandemia de Covid-19 no Brasil e já se somam milhares de mortos. O início foi em uma classe mais abastada, que tinha ido viajar para o exterior. Agora, está na periferia das cidades, dentro das casas, em regiões de muita concentração humana e baixo índice de desenvolvimento.

As tentativas de isolamento não são suficientes. As máscaras nas ruas e em ambientes fechados somente tardiamente se tornaram obrigatórias. A situação da falta de leitos nos hospitais traz a pergunta que não quer calar: poderíamos ter feito a diferença se tivéssemos introduzido o tratamento mais precoce para evitar a morte?

A oncologista e imunologista Nise Yamaguchi - Bruno Poletti - 22.out.15/Folhapress

Sabemos já, com muita clareza, que o início da doença tem a fase de proliferação do vírus e de aumento da carga viral. Depois vem a inflamação, com a formação de fatores de coagulação, infiltração de pulmões e, mais tarde, com o sistema imunológico muito ativado, a falência dos órgãos acometidos, sem que o tratamento do vírus reverta o quadro nesta fase.

O número de pacientes tratados nos estágios mais iniciais da doença com hidroxicloroquina, azitromicina e zinco na França, no Brasil, na Itália, na China, na Índia, nos Estados Unidos e em outros países alcança a casa dos milhares de pacientes beneficiados, com pouquíssimos efeitos colaterais severos. Estes eliminaram o vírus nas fases iniciais, ficaram imunes e não tiveram que ir para as UTIs lotadas nem enfrentarem situações dramáticas para eles e suas famílias. E isso tudo em meio a notícias catastróficas de que a cloroquina mata (em um estudo mal conduzido com doses altíssimas no Amazonas, mas que virou referência mundial), ou de que hidroxicloroquina não funciona em pacientes graves (algo que já sabíamos anteriormente).

Qual é o problema, então, que faz com que o sistema público de saúde do Brasil não disponibilize para pacientes mais iniciais este tratamento? Quantas mais mortes teremos para tentar uma medida que pode salvar vidas e que custa pouquíssimo? Ainda é muito cedo para usarmos hidroxicloroquina, zinco e azitromicina em pacientes com infecção por Covid-19 e que tenham risco moderado de terem agravamento da situação? Ou será que já passou da hora e o número de cadáveres que se avolumam vai pesar tremendamente na consciência daqueles que se omitiram ou que impediram os pacientes de terem acesso a um tratamento potencialmente eficaz para que não precisassem entrar na fase de inflamação e de tempestade, evitáveis se tratarmos mais precocemente?

Até todos os protocolos amadurecerem, até que todas as respostas cheguem, essas vidas não voltarão. Pais, mães, avós. Figuras essenciais que faltarão, cujas mortes trarão uma marca indelével a este momento jamais imaginado que estamos vivendo... Será que já é muito tarde para eles?

Urge, portanto, que o governo disponibilize hidroxicloroquina, azitromicina e zinco para os estados; que haja centros controlados de distribuição desses medicamentos de acordo com as regiões mais comprometidas pela doença; e que sejam treinados os médicos dos prontos-socorros, das unidades básicas de atendimento e dos ambulatórios de especialidades. Que todos eles sejam integrados ao sistema de saúde da família para que os agentes comunitários de saúde busquem ativamente os pacientes, orientando juntamente com médicos e enfermeiros para que os pacientes medicados sejam acompanhados por telemedicina.

Vamos salvar os que pudermos, vamos desafogar o sistema público de saúde, que não tolera tantos pacientes graves. Vamos juntar forças e ações efetivas, que ultrapassem as políticas de cada local!

Muitos médicos e enfermeiros estão adoecendo nesta grande batalha. É fundamental que tratemos os pacientes precocemente para evitarmos uma crise ainda maior no sistema. A vida é muito preciosa para ser desperdiçada! Muito cedo ou muito tarde?

Nise H. Yamaguchi

Oncologista e imunologista, é doutora em pneumologia e diretora da Sociedade Brasileira de Cancerologia e da Associação Brasileira de Mulheres Médicas

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