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Jair de Jesus Mari

O pior da pandemia se dará na saúde mental

Nunca se precisou tanto desse cuidado, e o O SUS não está preparado para isso

Jair de Jesus Mari

Estamos vivendo um período histórico e marcante da humanidade, em que as aceleradas cenas de horrores, por todos os cantos do planeta, ficarão na memória de várias gerações. Essas lembranças trarão sequelas mentais imensuráveis. A Covid-19 é uma condição particular de estresse que veio para impactar nossas mentes, desorganizar as economias das populações e aumentar o risco para o desenvolvimento de transtornos mentais em nível global.

O vírus causa tanto um estresse ambiental direto, pelo risco de contaminação e morte, quanto uma série de intercorrências relacionadas com a economia e o distanciamento social. Se o vírus não existisse, estaríamos tocando nossas vidas normalmente e nada disso aconteceria.

Jair de Jesus Mari Médico psiquiatra, é professor titular e chefe do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp)
O professor e psiquiatra Jair de Jesus Mari, chefe do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) - Divulgação

Mas vamos com calma: nem todo sobrevivente da pandemia vai apresentar um transtorno mental, porque estamos frente a estressores imprescindíveis, mas não necessariamente suficientes para o seu desencadeamento.

Os efeitos da Covid-19 na saúde mental vão depender das diferentes fases da pandemia. A primeira fase é marcada pelo foco de apreensão, que é o medo de ser contaminado ou de contaminar outras pessoas, o que não difere de situações traumáticas como as que se observam em um terremoto.

A segunda fase da epidemia está relacionada com o confinamento compulsório, que exige uma mudança coerciva de rotina. É uma reação de ajustamento situacional caracterizada por ansiedade, angústia, irritabilidade e desconforto em relação à nova realidade. Ficar depressivo e ansioso durante a pandemia é uma reação normal diante das circunstâncias de insegurança e do medo que nos prepara o futuro.

O estado de ansiedade preocupa quando o foco de apreensão expande os limites relacionados com a pandemia e invade outras faces da vida, como a familiar, conjugal e profissional. O estado de alerta na depressão se dá quando o indivíduo deixa de ter interesse pelas atividades de que gostava, é invadido por intensa tristeza, sente uma irritabilidade incontrolável, sensação de fadiga, desgaste emocional, insônia, pensamentos negativos e até ideias de que não vale a pena viver.

Uma população que está mais exposta a fatores de estresse são os profissionais de saúde que da linha de frente. Eles estão sendo submetidos a um alto nível de exigência física e emocional, dentro de uma estrutura assistencial insuficiente para garantir segurança profissional. São vários os relatos da carência de Equipamentos de Proteção Individual, levando, além do medo de ser contaminado, a uma sensação de descaso, desamparo e frustração com as condições adversas de trabalho, sem contar a convivência com cenas terrificantes no dia a dia. Nesta situação espera-se um nível elevado da síndrome de burnout (causada pelo esgotamento profissional).

A terceira fase da pandemia é a que vai estar relacionada com as mortes abruptas decorrentes da Covid-19. Sem os rituais habituais de despedida, poderão aumentar os casos de luto complicado com depressão e risco de suicídio. As pessoas que permanecerem nas unidades de terapia intensiva terão experienciado cenas inesquecíveis e traumáticas, com algumas desenvolvendo episódios futuros de estresse pós-traumático. As perdas econômicas, o desemprego e a acentuação da desigualdade social vão ocasionar aumento da depressão e de suicídios.

Nunca a humanidade precisou tanto dos profissionais de saúde mental como agora. O SUS não está preparado para dar conta desses problemas. Para superar essa situação é fundamental que os psicólogos da rede adotem técnicas psicoterápicas de intervenção breve e, assim, possam atingir um maior número de pessoas. Os casos mais graves deverão ser cuidados por psiquiatras com um bom treinamento no diagnóstico e tratamento dos transtornos mentais relacionados ao estresse.

O que se espera dos profissionais de saúde mental, além de um engajamento solidário no cuidado das pessoas em sofrimento, é que adotem práticas baseadas em sólidos conhecimentos científicos.

Jair de Jesus Mari

Médico psiquiatra, é professor titular e chefe do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp)

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