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Diretoria da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)

O que é ciência, afinal?

O cientista se atém aos resultados, não há imposição de ideias por achismos

Diretoria da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)

Muito se fala em ciência nos últimos dias, mas, para responder à questão proposta no título deste artigo, temos que nos remeter aos primórdios da humanidade, quando a intrínseca e insaciável curiosidade permitiu ao Homo sapiens dominar o medo e avançar no estabelecimento de sua espécie.

Ao observar os fenômenos naturais, o homem controlou o fogo e inventou a roda. O conhecimento adquirido a partir disso possibilitou utilizar a energia para produzir trabalho de forma eficaz. Com isso, o trabalho ficou mais produtivo, os alimentos se tornaram mais abundantes e o homem pôde dedicar uma parte do seu tempo para pensar e refletir mais, surgindo a filosofia, as artes e as ciências.

O neurocientista Sidarta Ribeiro, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) - Eduardo Anizelli - 13.jul.19/Folhapress

Da primeira carroça aos foguetes e satélites de comunicação, da iluminação das ruas às hidrelétricas que geram energia para uso doméstico, sustentam indústrias e produzem calor, o conhecimento permite que o homem avance e se sobreponha como espécie. O conhecimento adquirido por meio da ciência está em tudo o que fazemos e tocamos, nas relações sociais, na vestimenta, na comida, nos utensílios e aparelhos que tornam a vida mais fácil.

A própria observação contou, ao longo do tempo, com a evolução e organização do pensamento. Apareceu o método científico, uma maneira sistemática de observar a natureza e a sociedade, formular e testar hipóteses para refutá-las ou reconhecê-las, fazendo assim avançar o conhecimento.

Em ciência não há verdade absoluta, mas sempre e apenas fatos sustentados por orientações, determinantes metodológicas, racionalmente formuladas e interpretadas. Também não há enigmas ou adivinhações, uma hipótese pode não ser confirmada, e o cientista se atém aos seus resultados. Não há imposição de ideias por achismos.

Nem sempre, no entanto, foi fácil a vida de cientistas. Muitas vezes, na história, houve a necessidade de enfrentar o obscurantismo e o negacionismo. Tempos de cataclismos sanitários ou econômicos sempre foram marcados pela volta do medo e da incerteza. Os progressos da humanidade só foram possíveis ao sair desses tempos sombrios, e a história da humanidade está marcada justamente por cientistas ou filósofos como Galileu Galilei, Isaac Newton, Albert Einstein, Charles Darwin, Marie Curie, Rita Levi-Montalcini, Albert Sabin, Barbara McClintock, Craig Venter, Louis Pasteur, Oswaldo Cruz, Karl Popper, Margareth Mead, Alfred Marshall e John Nash, entre outros, que, com resilência e dedicação à ciência, permitiram a melhoria nas condições de vida da população.

Ataques à ciência são fundamentados por diferentes bases, levando ao obscurantismo e espalhando medo em pessoas que não tiveram oportunidade de acesso à educação ou são carentes de recursos e condições sanitárias. Por isso, há ainda que se combater a desigualdade, para distribuir a todas as pessoas a fartura que o conhecimento proporciona. Há, também, que se respeitar e conhecer a natureza, e não destruí-la de forma predatória.

Hoje vemos a população de nosso planeta atingida por uma pandemia, causada por um vírus que nem é elencado como uma forma de vida, pois precisa de células humanas vivas para se replicar e sobreviver. Não fossem a boa formação e o conjunto de conhecimentos gerados por cientistas, quase nada se saberia sobre essa pandemia.

Mas, porque há pesquisadores no mundo inteiro comprometidos com a geração e ampliação do conhecimento científico, sabemos muita coisa sobre o agente viral e a doença que ele acarreta. Os cientistas, pessoas que não tem fronteiras, buscam reunir seus esforços para juntar os conhecimentos e declarar guerra à crise sanitária estabelecida e salvar vidas que ameaçam a existência da própria espécie. Também os cientistas das humanidades procuram oferecer subsídios para as políticas públicas que podem reduzir impactos sociais e econômicos.

Nesse momento não há ideologias, políticas ou tendências religiosas que norteiem o trabalho incansável desses cientistas, e sim o desejo e anseio de salvar vidas por meio do entendimento do funcionamento do vírus, de como evitar sua multiplicação, de como tratar os doentes com máxima efetividade, controlando a pandemia.

Portanto, o método científico prevalece! O avanço do conhecimento, nem sempre na velocidade esperada ou desejada, reconhece ou refuta ideias de tratamento ou prevenção. Como aconteceu em outras ocasiões, esse processo produzirá respostas essenciais ao combate da pandemia e seus desdobramentos econômicos.

Nessa batalha contra a pandemia causada pelo coronavírus, é preciso lembrar que a natureza prevalece sobre as leis humanas, culturalmente construídas e, portanto, arbitrárias. Na ciência aceita-se que um estudante de doutorado esteja certo e um professor catedrático esteja errado, pois os fatos naturais se impõem. Da mesma forma, na luta, no combate de verdade, a realidade se impõe acima de qualquer hierarquia ou vontades. Não adianta dar gritos de comando ao coronavírus, um inimigo poderoso que só pode ser enfrentado com as armas da ciência.

Assim, há que se considerar a ciência e seus princípios! Não ouvir a ciência neste momento é abraçar a morte e voltar para a idade das trevas. Ouvir os cientistas e suas experiências é a única forma segura para a saída das crises na saúde e na economia e para promover o desenvolvimento social.

Apoie a ciência e participe da Marcha (virtual) pela Ciência na próxima quinta-feira (7).

* A diretoria da SBPC é composta por Ildeu de Castro Moreira, Fernanda Sobral, Aldo Malavasi, Paulo R. P. Hofmann, Sidarta Ribeiro, Cláudia Linhares Sales, Vera Almeida-Val, Lucile M. Floeter-Winter e Roseli de Deus Lopes

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