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Ricardo Patah

Reconversão industrial, a oportunidade da pandemia

Sofrimento seria menor se tivéssemos ativa uma indústria do setor de saúde

Ricardo Patah

A pandemia de Covid-19, que assusta, mata e paralisa o mundo, trouxe uma grande oportunidade para o Brasil: a reconversão industrial, que nada mais é do que a adaptação das empresas para produzir equipamentos como respiradores, máscaras, aventais, luvas e outros acessórios utilizados por médicos, pessoal de enfermagem e auxiliares no combate ao novo coronavírus.

Neste 1° de Maio dramático, infelizmente não há o que comemorar, por uma série de motivos. O maior deles é a crise sanitária que suspendeu os sonhos de todos. Nenhum país do mundo estava preparado para a pandemia. Mas nós poderíamos, com certeza, ter minorado as dores e os sofrimentos dos profissionais das atividades essenciais e dos pacientes que foram atingidos pela Covid-19 se tivéssemos uma indústria ativa no setor de saúde.

Ricardo Patah, presidente nacional da UGT (União Geral dos Trabalhadores) - Rubens Cavallari - 26.mar.19/Folhapress

Bastava termos investido na reconversão industrial (muitas empresas que poderiam ser adaptadas para isso) há alguns anos. Esse setor foi esquecido. Aliás, como toda a nossa combalida indústria nacional. Hoje, não estaríamos dependendo totalmente da China, a grande “farmácia do mundo” para a aquisição de respiradores, máscaras, luvas e aventais, uma vez que pelo menos 95% desses equipamentos são produzidos naquele país. Poderíamos produzir todos eles por aqui.

A adaptação feita agora é apenas o começo. Grandes empresas, como multinacionais, botaram a mão na massa e estão consertando respiradores (o Brasil tinha 5.000 parados por falta de manutenção). O setor têxtil está produzindo máscaras, no Nordeste, a pedido dos governadores. As universidades especializadas estão preparadas para ajudar. A Politécnica, da USP, por exemplo, construiu um respirador de baixo custo.

A criação de um polo no setor farmacêutico, com grande número de empregos, seria uma grande notícia para o nosso 1° de Maio. O movimento, como sabemos, começou em 1886, nos Estados Unidos, e pedia a redução da carga horária nas fábricas, que chegava a 17 horas por dia. Foi reprimido violentamente, e houve muitas mortes.

Infelizmente, aqui no Brasil, todos os direitos dos trabalhadores foram destruídos por “reformas” que trariam empregos, diziam. Na verdade, não só o desemprego aumentou como cresceu muito a informalidade (temos hoje mais de 40 milhões de brasileiros nesta condição).

Para completar a tragédia, o presidente Jair Bolsonaro fabricou medidas provisórias, as famosas MPs, contra os trabalhadores e a favor de empresários e do próprio governo. Uma delas, a MP 936, autorizou os contratos individuais, desrespeitando o artigo 7° da Constituição, que prevê acordos coletivos entre sindicatos e empresas. O argumento: manter os empregos. Grande balela. As demissões continuam. Vale lembrar, a medida teve o apoio do STF.

Diante dessa pandemia, o governo deveria ter papel regulador, como acontece em outros países, protegendo empregados e empregadores. Uma das grandes medidas seria incorporar a reconversão industrial, num projeto moderno para competir com a China. Ou, pelo menos, para não sermos humilhados com o monopólio dos chineses, que, com a desesperada procura por seus produtos, não tiveram dúvida. Fizeram leilão, na linha “quem dá mais“. EUA e países europeus fizeram a festa e nós não conseguimos nada —para o nosso desespero e, especialmente, dos trabalhadores das atividades essenciais e dos atingidos pela Covid-19. Bom 1° de Maio.

Ricardo Patah

Formado em direito e administração, é presidente nacional da UGT (União Geral dos Trabalhadores)

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