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César Borges

Salvemos as rodovias do preconceito

Crise é momento para ser enfrentado com medidas tempestivas e justas

A exemplo do que tem ocorrido com os demais modais de transporte, as concessões de rodovias precisariam do apoio dos poderes públicos e órgãos de controle para fazer frente à crise da Covid-19 e manter níveis de atendimento minimamente adequados. O que se tem visto, infelizmente, são discursos pouco realistas e muito preconceito por parte dos poderes concedentes.

Apesar da crise, o setor tem feito sua parte, mantendo intacto o nível dos serviços em cerca de 20 mil quilômetros de rodovias, com um contingente de 50 mil profissionais que operam o Centro de Controle de Operações e prestam por hora cerca de 361 atendimentos mecânicos e emergências médicas. Ao lado de médicos e caminhoneiros, eles são os nossos heróis, a quem aplaudimos pelo esforço e dedicação.

O ex-ministro César Borges, presidente-executivo da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR) - Sergio Lima - 27.jun.14/Folhapress

Até o momento, as concessionárias ofereceram gratuitamente quase 700 mil kits de apoio aos caminhoneiros, com álcool em gel e máscaras ou alimentos nos pontos de apoio e praças de pedágio, e 44 mil “tags” para pagamento de pedágio, com adesão gratuita e sem mensalidade por tempo determinado. Mantêm, ainda, equipes de paramédicos para orientar e realizar a avaliação inicial, com tomada de temperatura.

No entanto, a resposta mais enfática que têm recebido é a de que as concessionárias de rodovias, e somente elas, receberão um apoio desconfiado por parte dos governos, com avaliação caso a caso, de forma a se evitar um suposto oportunismo que imperaria e, como foi prometido, separando o joio do trigo.
Considera-se fundamental, neste momento, que seja feita uma reflexão sem preconceito ou otimismo exagerado e baseada nos fatos.

É fato que a pandemia afetou profundamente as concessionárias, com forte redução de tráfego, que vai repercutir por bastante tempo. O índice econômico ABCR (Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias) de abril, o primeiro que avaliou as operações em um mês inteiro de pandemia, já aponta variação de -43%, comparado a abril de 2019. A maior queda em 20 anos do setor.

Movimento no pedágio da altura do km 36, no sentido São Paulo, da rodovia dos Bandeirantes, às 16h40 do dia 23 de abril - Eduardo Knapp - 23.abr.20/Folhapress

A expectativa média é de que a retomada do volume de tráfego aos níveis considerados normais somente acontecerá em 2021, o que nos arrastará nesta crise por um longo período. Assim, o reequilíbrio econômico-financeiro será crítico para a sobrevivência de muitas concessionárias.

Também é fato que o poder público necessitará se apoiar cada vez mais no empreendedor privado, que, por sua vez, espera e precisa contar com um ambiente de negócios juridicamente seguro, no qual deve ter o poder público como principal parceiro. Ao reconhecer, de forma discriminatória, que o setor não precisa ser ajudado nas mesmas bases que todos os demais modais, o governo sinaliza justamente o contrário.

Governos e a classe política precisam apoiar o setor. Temos de aproveitar a oportunidade e sair desta crise mais fortes, como nação.

Crise é momento para ser enfrentado com medidas tempestivas e justas. Desconhecer a realidade e empurrar o problema com a barriga pode nos levar a problemas imensos no futuro.

César Borges

Presidente-executivo da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR); ex-governador da Bahia (1998-2002), ex-senador da República (2003-2011) e ex-ministro dos Transportes (2013-2014, governo Dilma)

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