Descrição de chapéu

A praia e o shopping

Não se vê razão para manter centros de compras abertos e parques fechados

Movimento de consumidores no Shopping Eldorado no primeiro dia da reabertura dos shoppings
Movimento de consumidores no Shopping Eldorado no primeiro dia da reabertura dos shoppings - Eduardo Knapp/Folhapress

Em que pesem esforços de governadores e prefeitos para se diferenciarem da irresponsabilidade do presidente Jair Bolsonaro na gestão da pandemia, nem sempre eles agem de acordo com as recomendações da ciência ao afrouxar regras de distanciamento social.

Não se trata de voltar a deplorar, aqui, aqueles administradores que liberam funcionamento de comércio, indústria e serviços onde infecções e mortes ainda estão em alta descontrolada. São casos de políticos que nem mesmo tentam manter a aparência de racionalidade.

Bem diversa se mostra, ou deveria mostrar-se, a filosofia do Plano São Paulo, adotada pelo governo estadual para escalonar em cinco fases o retorno das atividades por setores. São etapas baseadas em parâmetros objetivos preconizados por especialistas, como quantidade de casos e óbitos ou ocupação de instalações hospitalares.

Suscita alguma espécie que o material de divulgação do plano tenha foco exclusivo em atividades econômicas, omitindo outras práticas sociais que também acarretam impacto sanitário.

Atividades com algum risco, mas também com benefícios potenciais para a saúde física e mental da população confinada, como passear e exercitar-se ao ar livre, ficam ao arbítrio dos prefeitos.

Em locais como a capital paulista, cidadãos ainda tentam atinar com a razão para centros de compras terem permissão de funcionar, enquanto parques e clubes permanecem fechados. Em algumas cidades litorâneas, a incoerência se manifesta com comércio de rua aberto e praias interditadas.

Há amplo consenso entre infectologistas quanto ao tipo de ambiente em que a concentração de pessoas é mais favorável à transmissão do novo coronavírus: locais fechados, mal ventilados ou com sistemas de condicionamento de ar que mantêm em suspensão partículas virais expelidas por frequentadores contaminados.

Em outras palavras, shopping centers são bem mais propícios à infecção do que a praia ou o parque. No entanto foram os primeiros contemplados pelo relaxamento no Plano São Paulo, com capacidade e horários reduzidos.

Se existem razões plausíveis para dar liberdade às pessoas de passear na clausura do consumo, mas não em ambientes abertos mais saudáveis, os governantes as sonegaram. Razões que não derivem só de conveniência econômica e arrecadatória, bem entendido.

Com medidas incompreensíveis, o risco é que caia a confiança da população na solidez das políticas públicas de combate à Covid-19.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.