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A vacina e o Brasil

País atrai interesse de farmacêuticas por méritos e defeitos

Cientista no Centro de Biomanufatura Clínica em Oxford, que tem estudo de vacina para coronavírus
Cientista no Centro de Biomanufatura Clínica em Oxford, que tem estudo de vacina para coronavírus - Sean Elias - 18.abr.20/Divulgação/Reuters

O Brasil se tornou relevante no mercado de testes de vacinas contra a Covid-19 —em certa parte por seus méritos, mas sobretudo pelo fracasso em achatar a curva de avanço dos contágios.

Dois dos imunizantes mais promissores, um produzido pela Universidade de Oxford em parceria com o laboratório sueco-britânico AstraZeneca e o outro pela companhia chinesa Sinovac, terão parte de sua fase 3 de testes, a última antes da aprovação, realizada no país.

Uma parcela do interesse em realizar os testes por aqui está relacionada à boa estrutura médico-laboratorial disponível, que permite acompanhar de perto os voluntários, submetendo-os aos exames necessários para monitorar possíveis efeitos colaterais.

No caso do consórcio europeu, a parceria para a testagem é com a Universidade Federal de São Paulo; no da firma chinesa, com o Instituto Butantan, vinculado ao governo estadual paulista.

Também é conveniente para as farmacêuticas associar os testes, e eventualmente seus custos, a acordos de transferência de tecnologia para a produção em massa da vacina, caso ela se mostre viável —e o Brasil tem boa capacidade de fabricação, por meio do Butantan e da Fundação Oswaldo Cruz (laboratório Farmanguinhos).

No caso da iniciativa chinesa, o acordo com o Butantan já está firmado; no da europeia, um acerto com o Ministério da Saúde para produção em Farmanguinhos deve ser assinado nos próximos dias.

Lamentavelmente, porém, o grande atrativo que leva as farmacêuticas a procurarem o Brasil não reside em virtudes, mas no fato de que o vírus ainda circula com força por aqui, o que torna o processo de testagem da eficácia da vacina bem mais rápido e robusto.

Na Europa, é cadente o número de novos infectados; na China, o vírus está praticamente controlado. Estas não constituem as condições ideais de teste de uma vacina.

É positivo que os governos federal e paulista estejam se mobilizando para assegurar que o Brasil tenha acesso a vacinas tão logo elas recebam aprovação. As autoridades não podem se acomodar, entretanto. A taxa de fracasso de vacinas, mesmo das que chegam à fase 3, mostra-se elevada.

Para que o país não fique a ver navios, cumpre traçar planos alternativos com outras entidades em estágio avançado de desenvolvimento da vacina, além de já preparar a estrutura de produção em massa do imunizante. Por mais experiência que se tenha, não é trivial produzir mais de uma centena de milhão de doses e aplicá-las.

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