Descrição de chapéu
Hélio Menezes

Monumentos públicos de figuras controversas da história deveriam ser retirados? SIM

Mandar os malditos embora

Hélio Menezes

Na biografia que dedica ao poeta João da Cruz e Sousa, Paulo Leminski analisa a história do país e conclui: "O Brasil, qualquer transeunte sabe, foi descoberto por Cabral e fundado pela violência".

Qualquer transeunte, contudo, ao passar pela avenida Ibirapuera, em São Paulo, se depara com o monumento a Pedro Álvares Cabral, estátua que imagina o português em pose de herói descobridor, sem qualquer menção à violência genocida que compõe a biografia do homenageado, mais próxima à figura do invasor. Uma placa de granito no seu pedestal de mármore reproduz frase atribuída a Tancredo Neves, reforçando a ideia que o monumento tenta narrar visualmente: "A Portugal devemos tudo".

O antropólogo, crítico e pesquisador Hélio Menezes, que também é curador de arte contemporânea do Centro Cultural São Paulo
O antropólogo, crítico e pesquisador Hélio Menezes, que também é curador de arte contemporânea do Centro Cultural São Paulo - Arquivo pessoal

Vai-se embora, nessa combinação de imagem e texto, a centralidade das populações indígenas, africanas, seus descendentes e uma grande diversidade de povos na conformação do esgarçado, mas inequivocamente diverso, tecido social brasileiro.

Monumentos nem sempre são salvaguardas da história. Eles dizem mais respeito à mentalidade do contexto de suas criações, às negociações políticas e do direito à memória, que à missão de substitutos do ofício próprio dos historiadores. Sua natureza estática, contrária ao dinamismo dos processos sociais, pode gerar o efeito contrário, congelando no espaço representações de personagens e eventos que o acúmulo de pesquisas históricas, com o tempo, descreditaram como falsas, impróprias.

Essas construções, embora se imponham sobre as paisagens e sirvam não raro a legitimar narrativas excludentes, sofrem de um paradoxo: muitos só se fazem notar quando são questionados. Esses momentos revolvem a biografia —quase sempre decepcionante— dos heróis de pedra e metal, reacendendo o debate sobre as lacunas da história oficial, as histórias não contadas, as memórias apagadas. Essa justificativa, contudo, é suficiente para mantê-los de pé, reforçando imaginários coloniais e simbologias racistas em meio a nossos espaços de vida em comum?

Quando toleramos a perpetuação de imagens de colonizadores, escravistas e bandidos em geral em nossas vias, é sinal que esses espaços não são tão públicos assim; é indício forte de que privilegiamos a memória de alguns personagens em detrimento de outros. E qualquer transeunte sabe que os homenageados têm sido monotonamente escolhidos de um repertório de homens brancos, muitas vezes fardados, com o peso de biografias imorais em suas costas.

Nesses casos, é preciso mandar os malditos embora. Uma comissão composta pelo poder público e especialistas, sobretudo oriundos dos grupos cujas memórias não foram monumentalizadas, poderia ser constituída para analisar caso a caso. Pode-se mandá-los embora realocando-os em museus que os apresente criticamente; levando os exemplos extremos ao chão, num gesto extremo de reparação simbólica (e estética); pode-se confrontá-los a partir de intervenções, contramonumentos, reconfigurações que convidam à sua ressignificação "in loco" —mandando embora a maldição de sua história única. O que não se pode é deixá-los como estão; os riscos que corre essa gente à margem da cena, o horror de um progresso vazio.

Não se apaga a história ao dar a monumentos "controversos" novo destino. Se a recontextualização dessas estátuas não muda o passado, seu deslocamento informa o que já não se pode mais tolerar se almejamos, de fato, um espaço comum mais democrático, capaz de abarcar memórias plurais e de reparar as histórias jogadas para baixo do tapete da história.​

Hélio Menezes

Antropólogo, atua como curador, crítico e pesquisador; é curador de arte contemporânea do Centro Cultural São Paulo

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