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Gilberto Scofield Jr., Ariel Kogan e Luciano Santos

O que esperar do Google, Facebook e Twitter nas eleições 2020?

Empresas devem agir antecipadamente para a prevenção e o controle da desinformação

A resposta à pergunta do título é proatividade. Essas empresas (Facebook/WhatsApp, Google e Twitter) precisam demonstrar nas próximas eleições municipais que estão preocupadas e engajadas no combate à desinformação e ao discurso agressivo e partidário decorrente da polarização da sociedade.

Devem colaborar com as autoridades eleitorais para antecipar, monitorar e diminuir o alcance de campanhas e processos comprovadamente desinformativos nas eleições 2020, principalmente aqueles que podem ter um impacto no próprio processo eleitoral. As autoridades eleitorais têm a obrigação de assegurar um processo eleitoral íntegro, transparente e justo, tanto para os eleitores quanto para os candidatos e, certamente, precisam da colaboração dessas empresas para tamanho desafio.

Debatedores no Seminário Pós-Verdade, organizado pela Folha e pela Unicamp, que discutiu o fenômeno das notícias falsas - Reinaldo Canato - 11.set.18/Folhapress

As eleições deste ano se aproximam em meio a uma conjuntura preocupante, agravada pela pandemia causada pelo novo coronavírus. O processo crescente de desinformação dos eleitores, agravado e acelerado pelo uso das novas tecnologias e pelo nível de polarização política, fez crescer a agressividade e a violência no espaço virtual. E todo esse contexto já contamina o espaço real e o cotidiano das comunidades.

A próxima eleição apresenta um desafio adicional do ponto de vista do número de candidatos e da fragmentação das candidaturas, consequência da nova legislação eleitoral que proíbe as coligações nas disputas proporcionais.

Nesse contexto, o Facebook (WhatsApp), o Google e o Twitter têm a responsabilidade de agir antecipadamente e de forma planejada para a prevenção e o controle da desinformação nas eleições municipais de 2020. Essas empresas podem ajudar a reduzir de forma drástica o alcance de conteúdos reconhecidamente desinformativos, eliminando os incentivos financeiros associados a sua disseminação e ampliando as punições contratuais das infrações.

A audiência é uma das principais motivações para quem se envolve em processos de desinformação em eleições. A partir do momento em que essa audiência for reduzida, esses processos serão fortemente afetados. Também é importante retirar todos os incentivos financeiros que possam existir e que são utilizados por atores maliciosos de forma oportunista durante o período eleitoral. De forma prática, todo o conteúdo que for classificado como falso precisa ter a sua monetização cancelada. E a monetização já obtida só deve ser descontada de futuras receitas obtidas por quem gerencia a plataforma que promoveu o conteúdo.

Por fim, é fundamental que as atuais regras de suspensão de conteúdo e banimento de usuários possam servir como elementos de desincentivo mais vigorosos para atores maliciosos. É necessário e urgente categorizar e disseminar em alta escala a checagem de conteúdos desinformativos que circulam na internet. Quanto maior a quantidade de fontes checadoras com credibilidade produzindo checagens que possam ser acessíveis ao público, maior poderá ser a capacidade do público de rapidamente reconhecer as notícias desinformativas, assim como evitar a disseminação delas.

A rapidez e a categorização automatizada por meio de protocolos que facilitem uma rápida disseminação da checagem de fatos, dados e declarações nas plataformas tecnológicas de pesquisa e redes sociais integrando checadores de notícias e essas plataformas também facilitará a redução drástica do alcance dessas notícias, diminuindo seu impacto negativo no processo eleitoral e na democracia como um todo.

​É fundamental a transparência ativa e em tempo real sobre os recursos utilizados em propagandas eleitorais. A transparência deve ser tanto por quem adquire e promove a propaganda —como candidatos e partidos— quanto por quem a oferece, como as plataformas digitais. As campanhas realizadas para compra de espaço em sites e o impulsionamento de conteúdo em redes sociais fazem parte também desse cenário.

Facebook (WhatsApp), Google e Twitter, em parceria com as autoridades eleitorais, podem contribuir —e muito— na realização de campanhas nacionais de larga escala para alfabetização midiática e conscientização sobre o uso dessas ferramentas digitais, principalmente durante o processo eleitoral.

Gilberto Scofield Jr.

Jornalista e diretor de Estratégia e Negócios da Agência Lupa

Ariel Kogan

Diretor do Instituto Tecnologia e Equidade (IT&E)

Luciano Santos

Diretor-executivo do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE)

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