Descrição de chapéu

Quadratura do centrão

67% dos eleitores, segundo Datafolha, condenam barganha desesperada de Bolsonaro

O ex-deputado Roberto Jefferson (PTB), um dos expoentes do centrão - Mateus Bonomi - 16.jan.18/Folhapress

É evidente que Jair Bolsonaro busca uma espécie de quadratura do círculo ao cooptar, com cargos e verbas, parlamentares do famigerado centrão para a defesa de seu mandato —depois de uma campanha eleitoral baseada na demonização do que chama de “velha política”.

Não espanta, pois, que 67% dos brasileiros aptos a votar considerem que o presidente age mal, segundo pesquisa do Datafolha, ao negociar apoios no Congresso com as moedas do mais descarado fisiologismo. Entre eleitores de Bolsonaro, 52% pensam dessa maneira.

Na aproximação mal disfarçada com os operadores do varejo legislativo há, decerto, um cálculo de desespero. O chefe de Estado percebeu a erosão de sua governabilidade e buscou amparo onde podia.

Patrocinou, na prática, um casamento inusitado entre ala militar do governo, sempre tão ciosa de sua pureza, e o mal-afamado centrão. Todos terão de dividir postos na Esplanada brasiliense.

Os fardados promoveram uma deplorável intervenção no Ministério da Saúde, cujo resultado até aqui foi ampliar o risco de morte na pandemia e uma submissão a teses da ala ideológica que tanto odeiam.

Ao mesmo tempo, liberaram espaço para os neogovernistas na Educação, às expensas dos discípulos de Olavo de Carvalho.

Mais está por vir. Bolsonaro teme, com bons motivos, que um pedido de impeachment acabe por prosperar. Se não agora, em breve.

A tática é lógica, mas, tal e qual a cloroquina, pode ser ineficaz e embutir danos para o paciente. Bolsonaro foi eleito prometendo imolar o centrão no altar da Lava Jato.

Isso acabou. O totem da luta anticorrupção do governo, Sergio Moro, foi embora atirando. E a oferenda anunciada agora senta à mesa das benesses do Estado —isso para não citar sua lealdade porosa.

Bolsonaro tem visto sua rejeição subir, em especial no que tange à pilha de caixões que ajuda a engrossar, mas seu apoio segue estável.

Tal ambiente se mostra propenso a chacoalhadas sísmicas, como o episódio do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril. Ruídos autoritários como a ameaça institucional feita pelo ministro-general Augusto Heleno demonstram a volatilidade inerente ao arranjo.

Se o governo podia ostentar a fidelidade à agenda tresloucada da campanha eleitoral, agora esse ativo se perde. Além de desqualificado aos olhos de uma parcela crescente do país, Bolsonaro pode ser tachado de traidor em sua base.

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