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Agruras da esquerda

Siglas concorrem com menos prefeitos e sem capitalizar desgaste de Bolsonaro

 Humberto Costa e Lula durante reunião do diretório nacional do PT (Partido dos Trabalhadores), em São Paulo
Humberto Costa e Lula durante reunião do diretório nacional do PT (Partido dos Trabalhadores), em São Paulo - Zanone Fraissat - 17.jan.2020/Folhapress

As eleições municipais deste ano representarão o primeiro encontro dos partidos de esquerda com as urnas depois do tsunami político que, em 2016 e 2018, impôs ao então dominante PT e a seus aliados uma sucessão de derrotas.

Além de saudável, a alternância no poder faz parte do jogo democrático. Nesse sentido, nada haveria de propriamente traumático nos reveses experimentados pelo petismo —fora, claro, o impeachment de Dilma Rousseff e as condenações de Luiz Inácio Lula da Silva por corrupção passiva.

Chama a atenção, no entanto, que tais reveses —reflexos de uma onda conservadora que não se limitou ao Brasil— continuem provocando estragos para as forças mais identificadas com a esquerda.

É o que se observa, por exemplo, nas trocas de legenda por parte de prefeitos preocupados com a reeleição ou em fazer o sucessor.

Levantamento realizado pela Folha apontou que, entre 2017 e 2020, PT, PC do B, PDT, PSB e PSOL amargaram baixas no comando das prefeituras do país, de 1.084 para 907.

Enquanto isso, agremiações mais ao centro e à direita, casos de DEM, PSD e PP, registraram aumento, de 1.307 para 1.760, no número de prefeitos em seus quadros.

Decerto que tais migrações podem ser explicadas, em grande parte, pela atratividade do poder. É natural que as forças municipais busquem alinhamento às estaduais ou ao governo federal, em busca de mais verbas e chances eleitorais.

Há, todavia, evidência maior de que a esquerda não conseguiu superar seus últimos malogros —a incapacidade de se agigantar em meio ao desgaste acelerado do governo Jair Bolsonaro, especialmente com a gestão ruinosa da crise sanitária do novo coronavírus.

O presidente mantém o apoio de um terço do eleitorado, mas sua reprovação subiu neste ano de 36% para 44%. A queda do apoio nos estratos mais afluentes e escolarizados da sociedade foi compensada por novos simpatizantes entre os eleitores mais pobres.

É notável que, em tal cenário, os antagonistas mais destacados de Bolsonaro tenham sido o Supremo Tribunal Federal, os governadores de São Paulo, João Doria (PSDB), e do Rio, Wilson Witzel (PSC) e líderes centristas do Congresso, como o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Do lado petista, Lula não reconquistou protagonismo na cena nacional depois de deixar a prisão. Mais recentemente, recebeu críticas merecidas por não endossar movimentos em favor da democracia que buscam congregar forças de diferentes preferências.

Agarrados a teses econômicas que levaram o país à ruína e ao discurso rancoroso do golpe, o PT e seus satélites mostram dificuldades em formar alianças e ir além dos tradicionais nichos esquerdistas.

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