Descrição de chapéu
Betty Milan

Aprendizado na quarentena

Preciso de muito menos coisas do que imaginava

Betty Milan

Escritora e psicanalista; autora dos romances ‘O Papagaio e o Doutor’ e ‘Baal’ (ed. Record), entre outros

Queixar-se da pandemia, lamentar o sofrimento que ela impõe de nada adianta. Enquanto não houver vacina, nós somos reféns do vírus. O que interessa portanto é lidar com a situação e aprender com ela.

Depois de meses confinada, aprendi algumas coisas. Primeiro, fazendo um podcast para jornalistas que estavam particularmente estressados com as notícias a serem difundidas.

 A escritora e psicanalista Betty Milan em sua casa em São Paulo
A escritora e psicanalista Betty Milan em sua casa em São Paulo - Patricia Stavis - 14.jun.19/Folhapress

A mensagem do podcast era a seguinte: “Os que precisam difundir notícias dramáticas não devem se deixar tomar pelo drama. O jornalista expressa a sua compaixão na medida em que fica focado no trabalho e não se entrega aos sentimentos, pois é graças à qualidade do seu desempenho que ele expressa a sua compaixão.”

O sentimentalismo é contrário à coragem que o momento requer para suportar o drama planetário e aceitar o confinamento. Aprendi com ele que preciso de muito menos coisas do que imaginava, e que o consumismo é negativo sobretudo porque força a trabalhar mais do que o necessário, induzindo a imaginar que a felicidade depende do consumo. O mundo seria bem melhor se dispuséssemos de mais tempo para nós mesmos, se consumíssemos menos e se cuidássemos mais do planeta.

Graças ao confinamento, descobri a minha casa e o meu armário. Descartei tudo de que não precisava e valorizei o que ficou. Apliquei espontaneamente um dos ensinamentos do feng shui, que eu agora pretendo estudar.

Por ter examinado o conteúdo do armário, passei a usar uma roupa mais variada. Me surpreendi e surpreendi os outros, contrariando a monotonia inerente ao confinamento. Quando não é possível sair, a gente se comporta como se fosse, faz de conta para se alegrar. O faz de conta é um recurso poderoso de que o artista se vale para criar a sua obra.

A minha relação com as pessoas com quem eu moro se transformou. Por um lado, por causa de uma colaboração nas tarefas básicas do cotidiano —inexistente até o confinamento. Me vali de um certo talento culinário para comer bem e contentar os outros.

Por outro lado, me dei conta da importância da pessoa que fez as compras durante esses meses e dos entregadores do delivery. A pandemia obrigou a questionar a hierarquia, ensinou a paciência e a tolerância. Passei a não apontar defeitos e a valorizar qualidades.

A relação com o cotidiano mudou, e também a com a escrita. A morte, que se tornou tão presente, impôs uma outra relação com o tempo. Pude enfim escrever um livro, que foi encomendado inúmeras vezes e eu só fazia adiar —como se fosse eterna. Apreciei o trabalho a distância, porque ele obriga a ter maior prontidão, a escutar melhor e a se expressar mais claramente.

Com as descobertas e o faz de conta foi possível suportar o que a pandemia descortinou de pior: a incomensurável miséria brasileira e a incompetência do governo. Milhares de mortes poderiam ter sido evitadas se o governo federal tivesse aceitado a gravidade da crise e seguido as recomendações da OMS. Se, nos estados, o dinheiro destinado ao tratamento das vítimas não tivesse sido desviado por intermediários para quem o crime compensa e o castigo é sempre para os outros.

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