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Ricardo Lewandowski

Envelhecer em tempos de pandemia

Não se deve rebelar-se contra a velhice, mas aceitá-la com tranquilidade

Ricardo Lewandowski

Ministro do Supremo Tribunal Federal e professor titular de teoria do Estado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo

Não é tarefa fácil enfrentar com serenidade a inelutável progressão do envelhecimento e a onipresente perspectiva de adoecer ou morrer prematuramente nestes tempos de pandemia. Marco Túlio Cícero, político, orador e filósofo romano, que viveu entre 106 e 43 a.C., em seu diálogo “De Senectute”, escreveu palavras reconfortantes sobre os distintos momentos da vida, com ênfase na velhice e na morte, as quais talvez possam emprestar algum alento aos menos confiantes.

Em acanhado resumo, para Cícero a velhice não passa de um estágio necessário da existência, que se sucede à infância, adolescência e maturidade. Lembra que a senectude também tem suas virtudes, tal como as demais idades, não sendo razoável mostrar-se surpreso ou decepcionado com a sua inevitável chegada. Por si só, ela não causa infelicidade, mesmo porque as pessoas infelizes o são em todas as fases da vida.

O ministro do STF Ricardo Lewandowski
O ministro do STF Ricardo Lewandowski - Pedro Ladeira - 2.out.18/Folhapress

Consequência necessária do ciclo existencial de todos os viventes, a velhice, assim como a morte, deve ser aceita como um desígnio inescapável da natureza. Após o amadurecimento físico e mental, a vida se extingue paulatinamente. As pessoas sábias não devem rebelar-se contra ela, mas precisam aceitá-la com resignação e tranquilidade, pois todos os entes, tanto animados como inanimados, submetem-se à inexorável lei da permanente transformação.

Ao contrário do que muitos imaginam, a velhice não é penosa nem desagradável. Suas limitações podem até ser encaradas como vantagens, por isentarem os velhos das obrigações próprias dos jovens. O inconformismo com as dificuldades da vida constitui mais um atributo da personalidade individual do que uma característica dos idosos. Não raro, a idade avançada atrai o respeito e o reconhecimento das pessoas.

Quando se cultiva a virtude e a curiosidade intelectual até o fim, seguindo um mesmo padrão da infância à maturidade, colhe-se os melhores resultados na velhice, especialmente pela recordação dos momentos vividos de forma plena e útil. O que importa é valer-se, em cada momento da vida, dos recursos disponíveis para melhor arrostar os desafios com os quais se é confrontado. Uma das mais belas e compensadoras tarefas a que se podem dedicar os velhos é transmitir aos jovens os bons valores das gerações anteriores, cujo cumprimento independe de eventuais limitações físicas.

O declínio corporal, ademais, não deve ser debitado unicamente à velhice, pois quase sempre provém de uma vida pretérita extravagante. Nessa fase, o importante é usar a força física com parcimônia, segundo a capacidade de cada um, para que os velhos não sintam frustração nem fraqueza e tampouco lamentem a perda do vigor da juventude.

Não basta, porém, aguardar passivamente a chegada da velhice, sendo necessário resistir aos seus inconvenientes, especialmente conservando a saúde. É preciso alimentar-se de modo adequado para recompor as forças, evitando os excessos, sem esquecer de cultivar o espírito, o qual, diversamente do corpo, ao invés de fatigar-se, fica fortalecido com o exercício.

Cícero observa que não há prazo prefixado para duração da velhice. A vida continua plena enquanto for possível assumir os encargos que lhe são próprios. Os velhos, como regra, são mais corajosos e decididos do que os jovens. Por isso não devem se apegar nem renunciar ao tempo que lhes resta, mantendo sempre a altivez nos momentos finais. À moda dos estoicos, conclui que se deve deixar a vida não como quem sai de sua casa, mas como alguém que deixa um albergue onde foi acolhido.

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