Descrição de chapéu
Paulo Hoff e Marina Tamm

Preparados para a próxima pandemia?

Não há uma questão de se, mas de quando

Paulo Hoff

Presidente da Oncologia D'Or e diretor-geral do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira (Icesp)

Marina Tamm

Radio-oncologista da Oncologia D'Or

O célebre provérbio romano que se traduz do latim como: “se queres a paz, prepare-se para guerra” ilustra o conceito de prontidão em que uma nação, mesmo em tempos de paz, precisa estar preparada para o emprego imediato de suas Forças Armadas em situações de guerra. O mesmo conceito pode facilmente ser expandido para incluir grandes desastres e calamidades públicas.

Em 2015, Bill Gates, cofundador da Microsoft, “previu” uma pandemia e, depois, biólogos chineses, em março de 2019, publicaram artigo científico que alertava sobre a possibilidade de surtos futuros de coronavírus. Mesmo assim, vimos o desenrolar de uma tragédia anunciada em nível mundial cujo final ainda é uma incógnita.

Ponto de ônibus na avenida Paulista
Ponto de ônibus na avenida Paulista - Ronny Santos/Folhapress

De maneira muito similar a um grande conflito armado, a atual pandemia do Sars-CoV-2 se mostra devastadora, não só em número de vítimas, mas também pela crise econômica e pelo impacto social. Em apenas dois meses, o total de vítimas da Covid-19 nos Estados Unidos já superou o número de americanos mortos na Guerra do Vietnã, um conflito que durou mais de dez anos e que provocou reflexos profundos na cultura americana e em sua política exterior.

Uma das realidades mais chocantes foi o despreparo de todas as nações da Terra para lidar com um problema dessa magnitude. Fosse o vírus um pouco mais letal, ou fruto de uma guerra biológica deliberada, a própria sobrevivência de nossa civilização estaria em risco. Pode parecer prematuro discutirmos preparo para epidemias e pandemias futuras enquanto contabilizamos as vítimas desta calamidade, mas precisamos extrair todas as lições possíveis desta situação para que ela não se repita.

Infelizmente, não há uma questão de “se”, mas de “quando” teremos um novo desafio dessa magnitude. Precisamos, portanto, de um planejamento cuidadoso que deve incluir desde a criação de uma reserva estratégica de equipamentos e insumos de saúde até o desenvolvimento de protocolos de logística e monitoramento de áreas de risco, como fronteiras. O treinamento de profissionais de saúde nas faculdades e residências também precisa incluir noções de resposta a crises sanitárias, com cursos direcionados para atuação em situações de risco biológico.

De maneira similar aos militares, os profissionais de saúde costumam se preparar para emergências com treinamentos repetitivos e memorização de protocolos que tornam a ação quase um reflexo medular. Nesse contexto, os times de resposta rápida (TRR), presentes em muitos hospitais, atuam melhorando a qualidade do cuidado e reduzindo a mortalidade hospitalar. A criação de um time de resposta rápida nacional para enfrentamento de pandemias poderia também reduzir o impacto desta. Esse time estaria sempre treinado e em condições de atuar quando acionado, preferencialmente em sintonia com as forças armadas, importantes por sua vasta experiência e disponibilidade logística.

O planejamento precisa ser detalhado e incluir a escolha prévia de áreas adequadas para construção de hospitais de campanha, mapas de locais de risco assistencial, protocolos de quarentena e transporte de pacientes com doenças contagiosas, chegando até o direcionamento de insumos e regulação de vagas.

O mundo nunca enfrentou, mesmo durante conflitos, uma situação tão dramática e com implicações para a sociedade como a que se coloca agora. Queremos acreditar que estaremos mais fortes e preparados para lidar com a próxima pandemia e que vamos colocar em prática os ensinamentos das trincheiras para que a “síndrome do soldado” não seja o único legado do momento histórico que estamos vivendo.

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