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Marina Rocchi Martins Mattar

A nova era do 'capitalismo moral'

Lucro deverá estar associado a uma postura social e ambientalmente correta

Marina Rocchi Martins Mattar

Mestre em relações internacionais, é membro do comitê de direção da Carbon Pricing Leadership Coalition (Banco Mundial) e diretora de relações institucionais da Abear (Associação Brasileira de Empresas Aéreas)

Desde sua origem na enciclopédia, em 1753, o termo capitalismo foi associado ao conceito de ser um homem rico. Apenas no século 19, com o radicalismo de Karl Marx, ganhou o conceito negativo de exploração do homem pelo homem —não obstante, como a história comprovou, seja o único sistema que permite ascensão social.

Neste início de século 21, o mundo tem sido sacudido por um crescente vendaval de surpreendentes atitudes empresariais: companhias nos Estados Unidos boicotaram fortemente o Facebook; patrocinadores pressionaram times de futebol americano de nomes com conotações racistas a estudarem novas denominações para suas equipes; e empresários brasileiros exigiram do governo federal e do Congresso ações para reduzir o desmatamento na Amazônia.

BlackRock, um fundo que gerencia recursos da ordem de US$ 7,32 trilhões, restringiu o investimento em 53 empresas que não demonstraram progresso no combate ao aquecimento global.

É o início do que poderíamos chamar de "capitalismo moral", em que o lucro necessariamente deve estar associado a uma postura social e ambientalmente correta.

O desenvolvimento sustentável deixou de ser algo romântico, pregado por alguns idealistas, para aterrissar nas mesas dos líderes das maiores empresas do mundo. As companhias antes fortemente comprometidas com a economia à base de petróleo mudaram seu foco e direcionam seus negócios para a economia verde. As energias solar e eólica ganham força em todos os países do mundo, substituindo o petróleo e o carvão. A família Rockefeller e o Fundo Soberano da Noruega anunciaram que não investirão mais nesses setores, direcionando seus recursos para segmentos ambientalmente mais sustentáveis.

Nosso país tem um enorme potencial para liderar as discussões sobre economia de baixo carbono. Temos uma indústria forte e diversificada, um mercado crescente, somos ricos em matérias-primas —com uma das maiores reservas de lítio e a maior biodiversidade do mundo. É a hora de atrair investimentos!

Além disso, os consumidores exigem providências concretas para oferecer igualdade de oportunidades de crescimento profissional às mulheres, aos negros e aos portadores de deficiência. Já não é suficiente a empresa se preocupar apenas com a poluição do meio ambiente, é imprescindível um forte compromisso de agir para reduzir o aquecimento global.

A sociedade continua reconhecendo a importância do capitalismo como modelo que permite o crescimento pessoal e a ascensão social; contudo, cada vez mais exige que esse sistema seja socialmente mais justo, com forte compromisso em reduzir as desigualdades e preservar o mundo para as gerações vindouras.

Investimentos resilientes ao clima oferecem também um bom retorno. Como destaca Alexandre Kossoy, do Banco Mundial, "investimentos adaptados ao clima, quando você compara com os investimentos tradicionais, vão resultar em uma economia de mais US$ 4 trilhões —o equivalente a um retorno de quatro dólares para cada dólar investido".

O "capitalismo moral" veio para ficar. As empresas que souberem se adaptar rapidamente às novas exigências da sociedade estarão mais bem preparadas para conseguir recursos para seus investimentos e os melhores talentos no mercado de trabalho.

Bem-vindos aos novos tempos!

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