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Feira extremista

Em sinal de organização, ato em Berlim junta de neonazistas a militantes antivacina

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Ato contra as restrições do governo para impedir a disseminação de Covid-19 no sábado (1º), em Berlim
Ato contra as restrições do governo para impedir a disseminação de Covid-19 no sábado (1º), em Berlim - Christian Mang/Reuters

A Alemanha desponta como um caso de sucesso no controle da Covid-19. Até o fim de julho, o país contabilizava 209,5 mil casos confirmados da doença e 9,1 mil mortes. Isso representa uma letalidade de 4,4% e uma taxa de 11 óbitos por 100.000 habitantes —um quarto da francesa e um sexto da britânica, para citar potências europeias.

Não obstante, alemães insatisfeitos com as medidas de higiene e distanciamento social impostas pelo governo protestaram nas ruas de Berlim no sábado (1º).

Mobilizada por slogans como “fim da pandemia” e “corona, alarme falso”, uma multidão estimada em 20 mil pessoas tomou o portão de Brandemburgo para, nas palavras dos organizadores do ato, reconquistar a liberdade.

Não era um grupo uniforme, mas uma espécie de “market place” de facções de extrema direita que reunia de neonazistas até militantes antivacina e adeptos de teorias da conspiração, passando por esotéricos e pelo Flügel, uma divisão interna do partido populista Alternativa para a Alemanha (AfD).

Há dois motivos para preocupação. O primeiro diz respeito à pandemia propriamente dita. Mesmo se tratando de uma parcela pequena da população nas manifestações, é inquietante que tantos cidadãos não percebam que as medidas sanitárias pouparam o país de uma crise ainda pior.

Não se necessita olhar além das fronteiras europeias para concluir que países cujos líderes foram negligentes em relação à higiene e ao distanciamento social pagaram um preço em vidas muito maior. A democracia tolera bem a divergência de ideias, mas exige convergência em relação aos fatos.

O segundo aspecto diz respeito à política. A reunião de grupos com agendas tão distintas demonstra que a extrema direita tem conseguido se organizar, exercendo influência muito maior sobre o debate público do que autorizaria o número de adeptos dessas ideias , que, segundo pesquisas, representa entre 2% e 3% do eleitorado.

A manifestação de sábado não é o único indício da crescente capacidade de articulação dos ultradireitistas. Muito mais grave é a constatação de que o mesmo já ocorre no âmbito das instituições.

Isso ficou patente com a infiltração de um grupo extremista entre forças militares, o que levou à recente desativação do KSK, um comando de elite do Exército que fora tomado por radicais.

O dilema das democracias é que elas precisam defender-se daqueles que pretendem eliminá-las, mas sem destruir ou restringir demais a liberdade dos que as criticam.

editoriais@grupofolha.com.br

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