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Gustavo Nader Marta, Leandro Luongo de Matos e Luiz Paulo Kowalski

Mortalidade por câncer aumenta durante a pandemia

SUS terá que lidar com aumento expressivo de pacientes que não foram diagnosticados

Gustavo Nader Marta

Radio-oncologista, é doutor com pós-doutorado pela Faculdade de Medicina da USP

Leandro Luongo de Matos

Cirurgião de cabeça e pescoço, é professor livre docente pela Faculdade de Medicina da USP

Luiz Paulo Kowalski

Cirurgião de cabeça e pescoço, é professor titular da Faculdade de Medicina da USP

Já se passaram sete meses desde que o mundo viu surgir a pandemia causada pelo novo coronavírus. Foram previstas e confirmadas inúmeras pessoas infectadas pelo vírus com consequências nefastas para população mundial. Mais de 777 mil pessoas já morreram por Covid-19 no mundo e as taxas de mortalidade ainda então bastante elevadas em diversos países que falharam em adotar as medidas necessárias, incluindo o Brasil e os Estados Unidos.

Globalmente, essa situação obrigou que os sistemas públicos e privados de saúde adotassem mudanças em suas organizações, priorizando o enfrentamento da nova doença em caráter excepcional de urgência. Dessa forma, houve um extraordinário impacto no atendimento de outras enfermidades crônicas, com também potencial de altas taxas de letalidade —em especial, o câncer.

De acordo com a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), da Organização Mundial da Saúde, nesses sete meses já eram estimados mais de 5 milhões de óbitos por câncer no mundo. Estimativas bem fundamentadas apontam em pelo menos 20% o aumento no risco de morte por câncer como consequência da dificuldade no acesso desses pacientes ao tratamento adequado, fruto do atraso gerado pelo atendimento prioritário à Covid-19. Isso significa que não 10 milhões, mas 12 milhões de pessoas vão morrer de câncer neste ano e talvez também nos próximos.

Para o combate à pandemia de Covid-19, os esforços dos serviços de saúde em todas as esferas foram amplamente canalizados para esse fim, o que causou a diminuição e, por vezes, a interrupção de procedimentos eletivos. Isso significa dizer que muitos pacientes, seja por receio ou insuficiência de vagas, não conseguem ter acesso aos serviços médicos para realização de exames que poderiam diagnosticar mais precocemente um câncer.

Para a maioria dos tumores, quanto mais inicial e mais rápido for feito o tratamento oncológico, menor o custo e maiores as chances de cura e de reabilitação dos pacientes. Essa situação se torna ainda mais preocupante no contexto do sistema público brasileiro, em que já existem importantes deficiências no atendimento oncológico devido à insuficiência estrutural e à falta de profissionais da saúde especializados para atender adequadamente toda a população.

Dentro dessa perspectiva, o momento pós-pandemia deve ser o mais desafiador para a atenção à saúde dos pacientes oncológicos no Brasil. O sistema público terá que lidar com um aumento expressivo de pacientes que não foram diagnosticados e tratados durante a pandemia e que chegarão, muitas vezes, com câncer mais avançado. Como que um sistema já colapsado aumentará a sua capacidade de atendimento? Será possível atender a todos os pacientes em tempo hábil para que o possível atraso no início do tratamento não aumente o risco de mortalidade pelo câncer?

A situação do Brasil é delicada e buscar novos recursos não é tarefa simples, mas se nada for concretamente feito, o colapso já instalado do atendimento oncológico no sistema público do país vai substancialmente se agravar. Enquanto isso, alguns milhares de pacientes ficam aguardando nas filas, à espera de que a morte não seja a sua sentença anunciada.

Há, portanto, a necessidade de uma urgente discussão sobre o financiamento do setor público pós-pandemia para atendimento de pacientes oncológicos. Ignorar esse fato significará prolongar o sofrimento e contabilizar um número de mortes evitáveis por muito mais tempo.

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