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Jackson Augusto

A igreja evangélica e Martin Luther King

É preciso falar da experiência religiosa que surge das favelas, das periferias e dos que sofrem

Muito se fala de Martin Luther King Jr. nos púlpitos brasileiros.

Usam-se suas falas desconectadas do contexto, sem se aprofundar na sua teologia, que era extraordinariamente política, a partir da experiência das igrejas negras nos Estados Unidos; resultado de uma fé viva, que experimentou a escravidão e o racismo, mas se organizou comunitariamente.

É dessa religiosidade negra —“uma alternativa revolucionária para a religião branca”, segundo James Cone— que nasce um dos maiores líderes do século 20.

Em tempos em que parte da igreja evangélica está imersa em discursos de ódio e de injustiça, é preciso falar de uma experiência religiosa que surge das favelas, das periferias e dos que sofrem.

Pastores brancos e conservadores têm usado Luther King contra a luta antirracista, tentando projetar uma figura domesticada, separada do movimento negro e consequentemente tentando paralisar os negros dentro das igrejas. É por isso que precisamos falar de quem, segundo Cornel West, era o radical do amor, da justiça, da coragem e da liberdade:

“Eu não tenho nenhuma fé nos brancos no poder [...]. Eles vão nos tratar como trataram nossas irmãs e irmãos japoneses na Segunda Guerra Mundial. Eles vão nos jogar em campos de concentração [...]. Os doentes e os fascistas serão fortalecidos.”

Luther King não romantizou a reconciliação entre brancos e negros. Para ele, a reconciliação tinha parâmetros estabelecidos a partir da experiência dos oprimidos, dos que eram assassinados e violentados, mas ele vai além e diz:

“Tenho de confessar que ao longo dos últimos anos decepcionei-me seriamente com os brancos moderados. Quase cheguei à lamentável conclusão de que a maior pedra no caminho dos negros em seu avanço rumo à liberdade não é o White Citizen’s Counciler ou o membro da Ku Klux Klan, mas os brancos moderados.”

Não entenderemos o legado de Luther King se não entendermos o seu compromisso com a luta pela libertação do povo negro. Ele foi um pastor negro odiado por fundamentalistas. No seu discurso havia tensionamento racial, e sua trajetória foi forjada dentro da própria comunidade negra.

No contexto brasileiro, sabemos que, em sua maioria, a igreja evangélica é formada por negras e negros. Por isso é importante nos perguntarmos o que ainda falta para denunciarmos os brancos que estão no poder executando políticas de morte contra famílias negras ou que estão na igreja sendo moderados mesmo diante da grande violência e desumanidade que é o racismo no país.

Jackson Augusto

Batista, membro da coordenação nacional do Movimento Negro Evangélico e produtor de conteúdo do Afrocrente

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