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Pedro Hallal e Sidney Klajner

Covid-19: cuide-se também em casa

Máscara e distanciamento social são necessários caso alguém apresente sintomas

Pedro Hallal

Reitor da Universidade Federal de Pelotas e coordenador-geral da pesquisa de prevalência do coronavírus no Brasil

Sidney Klajner

Cirurgião do aparelho digestivo, é presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein

Cuide-se. Em todo lugar. Mesmo naquele em que se julgar com mais segurança: dentro de casa.

Enquanto os noticiários associam o enfrentamento à Covid-19 a uma guerra, com termos como batalha e combate, em casa as pessoas se descuidam porque ali parece que a bomba nunca vai cair. Mas a situação não é bem assim.

Essa é uma das principais mensagens do estudo Epicovid19-BR, cujo objetivo é mapear a epidemiologia do novo coronavírus no Brasil. Suas conclusões foram divulgadas no começo de julho. Entre os achados, descobriu-se que, a exemplo do que ocorre no mundo, aqui o inimigo também ataca dentro de casa.

A pesquisa Epicovid19-BR é uma das mais bem-sucedidas iniciativas científicas associada à pandemia em execução no país. É realizada em 133 cidades brasileiras e coordenada pelo Centro de Pesquisas Epidemiológicas da Universidade Federal de Pelotas (RS), com coleta de dados de responsabilidade do Ibope Inteligência.

O trabalho testou todos os moradores das casas nas quais a pessoa sorteada teve diagnóstico positivo para a doença. Uma das questões mais importantes que o levantamento pretendia responder era se, em caso de um paciente com diagnóstico confirmado, qual seria o percentual de coabitantes que também teria resultado positivo para o coronavírus.

Somadas as três fases desenvolvidas até aqui, foram testados 2.583 indivíduos que moram com alguém com teste positivo para o coronavírus. Desse total 39% tiveram resultados positivos. O número revela a urgência de conscientizar todos sobre a necessidade de proteção dentro de casa.

É natural que, na residência, as pessoas se sintam mais à vontade, relaxadas e desfrutem da sensação de que estão imunes ao contágio. No entanto, como demonstra a pesquisa, o risco existe, é grande e, por essa razão, não pode ser menosprezado. Especialmente quando alguém da casa estiver com sintomas, é prudente utilizar máscara e praticar o distanciamento social e até o isolamento da pessoa sintomática.

A importância dessa informação deixa cristalina a necessidade conjunta de investimentos em pesquisas. Produzir conhecimento é um dever de todos.

O Epicovid19-BR é exemplo do que pode ser produzido por organizações diversas. Em julho financiado pelo Ministério da Saúde, o estudo teve o apoio do Instituto Serrapilheira, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), da Pastoral da Criança e recebeu doação do programa da JBS "Fazer o Bem Faz Bem".

O mesmo programa estimula startups incubadas na Eretz.bio, incubadora da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, como os projetos de diagnóstico por aplicativo e inteligência artificial (IA) desenvolvido pela spin-off Escala em colaboração com a área de big data do Einstein; a triagem para volta ao trabalho por meio de IA, solução conjunta das startups Hoobox e Radsquare; e o monitoramento epidemiológico criado pela startup ePHealth.

Exemplos do incentivo desse programa prosseguem em outras instituições, como a pesquisa da Fiocruz para proteção e atenção para a população indígena contra a Covid-19 e o estudo para o diagnóstico molecular para teste do novo coronavírus, desenvolvido pelo Centro sobre o Genoma Humano da USP.

O respeito à ciência é essencial para que o mundo vença a pandemia. As informações do Epicovid19-BR devem servir de base para a adoção de comportamentos individuais e familiares mais responsáveis.

Em casa, ou em qualquer lugar, máscaras, mesmo as caseiras, são uma barreira efetiva contra o coronavírus. Além disso, elas inibem a manipulação mecânica das mucosas nasais e oral, que fazemos inconscientemente a todo momento se não as estivermos usando.

É um recurso simples que temos à disposição, enquanto a vacina não vem. Quando a pandemia for lembrada daqui a cem anos, que seja apontada como um período em que aprendemos a demonstrar afeto pelo olhar, por cima de uma máscara, enquanto abraços, beijos e cumprimentos de mão tiveram de esperar. Cuide-se.

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