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Joel Birman

O preço escorchante da pandemia

Sem sabermos a quem pedir proteção, fomos lançados ao abismo do desalento

Joel Birman

Psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da UFRJ

Existe unanimidade entre os sanitaristas de que os danos da pandemia no Brasil, mensurados pelos infectados (mais de 4,1 milhões) e mortos (mais de 126 mil), se devem à ausência de uma política unívoca para o seu enfrentamento, como ocorreu com a Nova Zelândia, a Europa e a Ásia. Com efeito, a duplicidade de mensagens sobre o combate enunciado por Jair Bolsonaro, por um lado, e por governadores e prefeitos, pelo outro, foi a fonte da discórdia. Portanto, não existiu liderança, de forma que a mortalidade ultrapassou as grandes catástrofes brasileiras —a saber, a Guerra do Paraguai e a gripe espanhola.

Nessa perspectiva, circulou no espaço social do país a dupla mensagem (Gregory Bateson), pois os cidadãos não sabiam em qual governante confiar, produzindo fragmentação e confusão psíquicas, pelo duplo modelo de identificação proposto. Além disso, a invisibilidade do vírus, conjugada à inexistência de uma vacina e de protocolos terapêuticos consistentes, reativou nos indivíduos o desamparo (Freud), passível de ser intensificado nas condições em que o sujeito, ao não saber a quem apelar para ser protegido, ser lançado ao abismo do desalento. No entanto, a demarcação dessa duplicidade foi delineada entre os que reconheciam a legitimidade da ciência e os que a negavam, instituindo a oposição entre os imperativos da vida e da economia, que pode ser enunciada pela oposição entre a vida e a bolsa, evocando Shakespeare em "O Mercador de Veneza".

A consequência desse embate nos levou a uma situação epidemiológica inesperada, pois a flexibilização foi aqui realizada quando a curva atingiu um patamar de 1.200 mortos por dia e milhares de infectados! Enfim, isso evidencia o Brasil na condição de exceção no cenário internacional, comparável apenas às condições norte-americana e indiana.

Tudo isso preocupa, já que a flexibilização antecipatória das normas sanitárias não apenas incrementa as contaminações e mortes como também impõe uma ameaça desastrosa, a do retorno das interdições sanitárias, prolongando a pandemia. Nesse contexto, não se pode esquecer que estamos na primeira onda da doença, e não na segunda, como em outros países. O paradoxo, para os que negam a ciência, é que com a extensão da pandemia os prejuízos serão piores (em oposição ao que era pretendido) na voracidade por ganhos às custas de vidas, pois na sua ignorância tudo não passaria de uma "gripezinha", magicamente solúvel pela cloroquina! Porém, existe ainda o paradoxo no psiquismo, já que intensificar as restrições sanitárias prolongaria o sofrimento da população, já cansada das restrições.

Precisamos reconhecer, no entanto, que as regras da quarentena são duras para todos, os que reconhecem e os que negam a ciência. Com efeito, o Brasil, como os demais países ocidentais, se constituiu pelo pressuposto do individualismo, de forma que o indivíduo como valor primordial se opõe a qualquer domínio do Estado —o oposto do que ocorre com os países orientais, nos quais o pressuposto totalizante da coletividade subsome à individualidade (Louis Dumont).

Daí porque o Oriente resolveu com mais eficácia a pandemia, pois contou com a colaboração de suas populações. Contudo, a tradição individualista pressupõe como corolário a expansão do registro da interioridade do sujeito, pelas vias da imaginação e da memória, como campos de circulação do desejo, no lugar do registro da exterioridade, como estratégia de refúgio do sujeito, nas circunstâncias em que o mundo seja difícil de ser habitado. Porém, o individualismo à brasileira se mostrou capenga, como evidenciaram as rebeliões violentas contra as proibições —o que não ocorreu com os europeus, que reativaram a imaginação com inventividade, como nas óperas e cantorias que os italianos realizaram em suas casas.

Portanto, é importante enunciar que o sofrimento que parcela da população brasileira experimentou na pandemia não foi apenas a consequência das normas sanitárias e do temor correlato da morte, com o desamparo e o desalento como subjetivações, mas também dos impasses do individualismo. Com efeito, não se pode viver num país onde se marca nos corpos de sua população as marcas indeléveis da escravidão e do colonialismo, que se reproduz como racismo estrutural, sem que se pague o preço escorchante da pandemia, com a vida das populações pobres, permeado na sua nervura pelo negacionismo arrogante de nossos governantes.

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