Descrição de chapéu
Angelo Zanaga Trapé e Gecimara Hybner

A vacina contra a Covid-19 deve ser obrigatória? SIM

Ativistas proclamam uma liberdade individual alienada do direito de milhões

Angelo Zanaga Trapé

Médico, doutor em saúde coletiva pela Unicamp e presidente do Instituto de Pesquisas e Educação em Saúde e Sustentabilidade (Inpes)

Gecimara Hybner

Médica no Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest/CE), é especializada em medicina do trabalho pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

Quatro anos atrás, o ator Robert De Niro incluiu no festival de cinema de Tribeca, elegante bairro norte-americano em Manhattan, o documentário “Vacinas: do encobrimento à catástrofe”. O autor, o médico britânico Andrew Wakefield, relacionava o transtorno do autismo ao uso da vacina tríplice viral, contra sarampo, rubéola e caxumba. Mas De Niro cancelou a exibição ao ser alertado pela comunidade médica sobre fatos escabrosos de charlatanismo manipulados por Wakefield. Ainda assim, o pseudoestudo contaminou milhões de desavisados e incitou a onda mundial antivacina.

No ano passado, o sarampo causou 142.300 mortes em 182 países. Os números, recordes desde 2006, segundo a Organização Mundial da Saúde, tiveram como uma das razões o ativismo antivacina. O Brasil tem dado exemplo alarmante.

Pela primeira vez desde 1994, a cobertura vacinal para 15 doenças ficou muito aquém da meta de 95%: contra o sarampo, 70%; no combate à tuberculose, 63%; e apenas 54% dos adultos até 60 anos vacinaram-se contra a gripe —cujas epidemias anuais causam, segundo a OMS, entre 290 mil e 600 mil mortes.

Sequer o 1,2 milhão de vidas, até o momento, ceifadas no mundo pelo Sars-Cov-2 trouxeram os “anti-vaxxers” ao terreno da razão. No Brasil, a insensatez se evidencia em pesquisa recente do Datafolha: 80% dos eleitores no Rio de Janeiro e 79% em São Paulo se submeterão à vacina contra a Covid-19; porém, 4% têm dúvidas e nada menos do que 16% dos cariocas e 17% dos paulistanos recusarão o tratamento. Se elevados a proporções de país, somam 30 milhões sem imunização.

Parece importar pouco a esses renitentes a contradição: embora reneguem a vacina, se beneficiarão do efeito biológico da imunidade de grupo, que reduzirá a taxa de transmissão da doença. Esse número pode ser mensurado.

A Anvisa adota critério regulatório seguido na maioria dos países: licencia vacinas cuja eficácia proteja, pelo menos, 70% das pessoas imunizadas. Como os casos diagnosticados no Brasil, até esta semana, alcançam 5,5 milhões, o resultado, por si, apela à obrigatoriedade: se no início da pandemia houvesse alguma das quase 200 vacinas hoje em pesquisa, a contaminação teria sido reduzida a cerca de 1,7 milhão de pessoas. Quanto a mortes evitadas, qualquer projeção será sujeita à complexidade de fatores, mas certamente lastimaríamos bem menos do que as atuais 159 mil.

Nos anos 1960, pensadores sociais, como Robert Merton, analisaram o avanço da ciência enquanto conquista imparcial, bem público gratuito e sujeita à permanente revisão crítica. De acordo com Harry Collins, membro da Academia Britânica de Ciências, o pensamento científico foi aliado na vitória contra o fascismo e o nazismo.

Daí preocupa que o retrocesso no Brasil não se trata apenas de disparates contra a ciência: ele se enraíza à sombra do obscurantismo antidemocracia. Esses ativistas, com o mesmo ardor que proclamam uma liberdade individual alienada dos direitos de milhões de semelhantes, querem banir veículos de imprensa, o Congresso e o Judiciário.

Os debates e as decisões no STF e no Congresso Nacional têm o dever de colocar a ciência de volta no centro dos interesses da ampla maioria. Pois, conforme alertou Harry Collins, a perspectiva de uma sociedade que rejeita os valores da ciência e do conhecimento é trágica demais para ser contemporizada.

TENDÊNCIAS / DEBATES
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.