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Maria Gal

Ações afirmativas no audiovisual

Empresas poderiam patrocinar filmes e e programas comandados por negros

Maria Gal

Atriz, apresentadora e produtora; fez parte do elenco da novela “As Aventuras de Poliana”, do SBT

Ações afirmativas existem no Brasil há 30 anos, mas ganharam protagonismo recentemente por conta do necessário programa de trainees do Magazine Luiza, após a empresa ter se dado conta de que tem apenas 16% de pessoas negras em seus cargos de liderança.

A procuradora do Ministério Público do Trabalho Elisiane Santos lembra: “À época da ditadura militar foi aprovada no Brasil a chamada Lei do Boi (1968), que previa cotas para agricultores e seus filhos ingressarem no ensino médio (30%) e superior (50%) em escolas agrícolas, beneficiando massivamente pessoas brancas”. Não parece curioso que cotas para imigrantes europeus com recebimento de terras e dinheiro no período pós-abolição nunca tenham sido questionadas pela sociedade ou pelo Judiciário?

A atriz Maria Gal
A atriz e produtora Maria Gal - Luiz Crispino - 21.abr.19/Divulgação

O grande Abdias Nascimento dizia, em seu livro “O Genocídio Negro”, que “quando uma pessoa não gosta de um negro é lamentável, mas quando toda uma sociedade assume atitudes racistas frente a um povo inteiro, ou se nega a enfrentar, aí então o resultado é trágico para nós, negros (...). E é este racismo coletivo, este racismo institucionalizado, que dá origem a todo tipo de violência contra um povo inteiro. É este racismo institucionalizado que dá segurança para a prática de atos racistas”.
Uma das formas mais cruéis de racismo é o genocídio simbólico, através do embranquecimento cultural.

É importante lembrar estudos da Ancine (órgão do setor do audiovisual) sobre filmes comerciais em 2016: 97,2% dos 142 filmes lançados no ano foram dirigidos por pessoas brancas. Mulheres comandaram 19,7% deles; homens negros, apenas 2,1%. Nenhum filme em 2016 foi dirigido ou roteirizado por uma mulher negra. E de 2016 pra 2020, o que mudou?

Outro dado importante da pesquisa mostra que, quando há uma pessoa negra em cargo de liderança no projeto, a obra costuma ter mais pessoas negras também em outros cargos, por haver maior empatia. A questão racial não é um “problema dos negros”, mas de toda a sociedade. A população branca tem o dever de ser aliada e de tomar atitudes concretas antirracistas, já que brancos são os que estão em cargos de poder em todos os setores da sociedade.

Seria muito pertinente que as empresas aportassem parte de seu orçamento de patrocínio ou uma porcentagem pequena de seus lucros para patrocinar filmes, séries e programas de entretenimento que tenham sinergia com a questão racial e que sejam dirigidos, roteirizados, protagonizados, produzidos por pessoas negras, já que ser preto não se trata apenas da cor da pele, mas também de cultura e experiência, como diz outro mestre, Spike Lee.

Sobre as empresas, é interessante também perceber que as ações da Magazine Luiza subiram após o anúncio do programa de trainee. Interessante notar que os próprios investidores, especialmente os de fora do país, estão pressionando as empresas a adotarem ações afirmativas, já que diversidade também é uma vantagem competitiva.

O ideal é que a ideia de diversificar as ações para gerar mais capital e correr menos riscos se ampliasse para as culturas de todas as empresas do Brasil, inclusive do setor do audiovisual, já que a invisibilidade simbólica do audiovisual expressa monopólio de dominação branca e racismo estrutural.

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