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Makchwell Coimbra Narcizo

Assassinato de Samuel Paty expõe face extremista do Rassemblement National

Partido de Marine Le Pen explora politicamente decapitação de professor francês

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Makchwell Coimbra Narcizo

Professor e doutor em história

O partido francês Rassemblement National, conhecido até 2018 como Front National, já é tradicional no cenário político do país, estando há tempos entre as principais forças políticas. Fundado em 1972 com um tom marcadamente nacionalista, nasceu no interior de um grupo neofascista, o Ordre Nouveau.

Em um período em que a direita francesa estava em descrédito, desde o fim da guerra franco-argelina, acentuado na década de 1970, o FN surgiu como uma nova possibilidade, uma espécie de restaurador da direita. Consegue desde então ser protagonista entre os grupos de extrema direita no país, centralizando sobre si tal tendência política e fazendo de seu fundador e porta-voz, Jean-Marie Le Pen, o principal nome desse espectro ideológico. No entanto, sua figura polêmica e radical sai de cena em 2011, dando lugar à sua filha Marine Le Pen, com um tom bem mais conciliador em uma tentativa de suavizar a imagem do partido frente à opinião pública.

A líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen - Ludovic Marin - 23.out.20/AFP

Marine Le Pen traz consigo uma modernização na forma de apresentar o partido, de se apresentar. O RN tem buscado fazer uma adequação para seu tempo, que vem sendo chamado de desdemonização.

Raramente perde o tom, com discursos menos agressivos, milimetricamente controlados, desde as palavras à tonalidade de voz —ou seja, tem buscado se apresentar como um partido democrático. Só perde o tom em eventos singulares, quando volta a fazer uso de um discurso tradicionalmente atrelado à extrema direita —a decapitação do professor Samuel Paty é um desses. O evento passou a ser explorado de maneira significativa, explicitando a herança xenófoba do partido. Alguns temas, desde então, dominaram os espaços nas redes sociais, no site oficial e em pronunciamentos do partido e de seus líderes, em especial Marine Le Pen.

Em meio a toda comoção, o RN criou um documento intitulado “Contra a barbárie islâmica”, no qual traça diretrizes para sanar o “problema” da ameaça islamista e ataca duramente o governo Emmanuel Macron. Dentre as ações, no dia 16 de outubro Marine Le Pen visitou o local do assassinato do professor. Trajada de preto e com uma faixa com as cores da bandeira francesa, levou flores e, com uma imagem consternada e abalada, não concedeu entrevistas. Fez apenas um pronunciamento: “A melhor homenagem que podemos prestar a ele é agir com força contra essa barbárie”.

Esses eventos cumprem para o RN um jogo duplo. Marine Le Pen está em campanha eleitoral, e o objetivo do RN é a Presidência da França. Casos como este são excelentes para seus propósitos, na medida em que cumprem o objetivo de manter os votos dos mais radicais, visto que destila todo o chorume de extrema direita que caracterizou o partido em grande parte de sua história. É como se dissesse aos votantes radicais: “Ainda estamos aqui, ainda somos o que sempre fomos”. Por outro lado, a caçada aos votos dos mais moderados ainda está em curso com a desdemonização.

A extrema direita francesa, em especial o RN, ganha novos contornos propícios de seu tempo e se reconstrói a partir de seu passado, mas busca ler seu presente, sendo feita uma leitura com base na história, almejando compreender as rupturas e permanências que propiciam e que sustentam seu crescimento. O assassinato do professor Paty é apenas um mecanismo nessa leitura.

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