Descrição de chapéu
Manoela Miklos e Mayra Cotta

Assédio sexual não tem graça

Todas as mulheres, em todos os meios, estão sujeitas ao chefe assediador

Manoela Miklos

Cientista política, doutora em relações internacionais pela PUC-SP, especialista em direitos humanos e ativista feminista

Mayra Cotta

Advogada criminalista, representa seis vítimas de assédio e seis testemunhas no caso do ex-humorista da TV Globo Marcius Melhem

As denúncias de assédio sexual contra Marcius Melhem, ex-chefe do núcleo de humor da TV Globo, são o mais recente exemplo do quanto as mulheres ainda estão expostas a violências no ambiente de trabalho.

Atrizes em grandes emissoras, advogadas em escritórios de renome, trabalhadoras domésticas e copeiras, juízas e desembargadoras, professoras do ensino infantil, fundamental, médio. Todas as mulheres, em todos os meios, estão sujeitas a isso. Experimentamos as violências de maneira distinta —gênero, raça, classe e outros marcadores da diferença determinam como o assédio sexual aterriza no corpos de cada mulher. Onde há mulheres trabalhando e homens em posição de chefia, frequentemente há abuso.

O ator e humorista Marcius Melhem - João Motta - 25.abr.2016/Globo/Divulgação

Os dados nacionais e internacionais sobre o tema, nada obstante a expressiva subnotificação, são alarmantes. Pesquisa recente conduzida pelo Instituto Think Olga em parceira com o LinkedIn confirmou aquilo que já sabíamos: no Brasil, metade das mulheres já sofreram assédio sexual no trabalho e menos de um terço dos casos são reportados.

O medo funciona como uma mordaça para essas mulheres. “Não posso perder meu emprego”; “não quero sofrer ainda mais com retaliações vindas do meu superior e dos que o protegem”; “não quero que minha família saiba”; “não vão acreditar em mim”. Os dados revelam que metade das brasileiras já lidou com sentimentos dessas naturezas.

Temos urgência, precisamos lidar com esse gravíssimo problema. Há maneiras eficazes de proteger as mulheres e responsabilizar chefes e colegas de trabalho que as tomam por presas.

O caso de Marcius Melhem lançou um holofote sobre o funcionamento e a construção de um ambiente de trabalho governado por práticas de assédio. Os relatos de funcionárias e funcionários dão conta de um gestor homem que galgou posições de poder dentro de uma corporação porque constrange, coage, silencia e pune. O talento é apenas uma pequena parte, por vezes até insignificante, do que eleva homens assim e os conserva no topo da hierarquia.

Um caso cujos protagonistas são nomes conhecidíssimos pode impressionar e parecer extraordinário. Não o é. Esse caso deve nos impressionar pelo que tem de ordinário. Não podemos perder a chance de galvanizar transformações e poupar milhões de mulheres.

O modus operandi de Melhem reproduz de maneira quase caricatural o que acontece em todos os espaços de trabalho das mais variadas indústrias. Cada chefe adapta suas práticas aos privilégios que lhe são acessíveis e à intensidade da autoridade que consegue exercer. O que separa Melhem do dono da padaria que agarra as atendentes quando passa por elas é o tamanho do poder que o chefe do Núcleo de Humor da maior empresa de comunicação da América Latina tem. Melhem conseguiu chegar tão longe com as suas práticas violentas porque habita círculos que não são acessados por qualquer homem chefe. Ele é uma manifestação exacerbada da assimetria de poder que estrutura as relações cotidianas de trabalho.

Melhem não é uma exceção chocante. Toda profissional, seja qual for seu ramo, conhece um chefe assim. O assédio sexual no ambiente de trabalho é rotineiro e parece, para nós, mulheres, inexorável. Precisamos ter as conversas difíceis que o medo nos faz adiar. Precisamos que corporações compreendam finalmente que é inaceitável que o acesso livre e impune aos corpos das subordinadas faça parte do salário dos homens chefes.

TENDÊNCIAS / DEBATES
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.​​

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.