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Marco Antonio Carvalho Teixeira e Vera Chaia

Com a pandemia, o horário eleitoral será decisivo para o eleitor escolher seus candidatos? SIM

Redes mais mobilizam os convertidos do que atraem adesões

Marco Antonio Carvalho Teixeira

Cientista político, é doutor em ciências sociais pela PUC-SP e professor e coordenador do curso de administração pública da FGV-Eaesp

Vera Chaia

Doutora em ciência política pela USP e professora do Departamento de Política da PUC-SP

As eleições municipais de 2020 serão bem distintas das anteriores. O combate à Covid-19, ao exigir o isolamento social, provocou mudanças no calendário eleitoral, adiou a implementação da identificação biométrica e desafia a criatividade de partidos e candidatos numa campanha eleitoral com restrições de ações de rua, comícios e encontros presenciais que promovam aglomerações.

As convenções partidárias já tiveram que se adaptar: foram feitos encontros virtuais por diferentes plataformas, e muitos partidos usaram sistemas “drive-thru” e “drive-in" para viabilizar a participação de convencionais, lançando seus candidatos em eventos “quase públicos”.

Na busca pelo voto, o uso de ferramentas virtuais para a aproximação do candidato com o eleitor tornou-se imprescindível. As redes sociais, sem dúvida, vão continuar sendo muito utilizadas. Todavia, elas —as redes— mostram-se mais eficientes para manter a mobilização de convertidos do que para atrair adesões. Além disso, após a enxurrada de fake news nas eleições de 2018, os tribunais eleitorais vão monitorá-las com maior rigor, e os eleitores terão mais cuidado para filtrar as informações que recebem.

No Brasil sob a Covid-19, com as pessoas permanecendo mais tempo em casa, a televisão recuperou sua importância como meio de acesso a informações sobre a conjuntura do país. Pesquisa do Kantar-Ibope, realizada entre a segunda metade de março e o final de junho de 2020, aponta que 90% dos jovens brasileiros entre 16 e 30 anos de idade procuraram o jornalismo da principal emissora de TV para se informar em relação à doença. Mais recentemente, também o Ibope divulgou dados mostrando um aumento de 34 minutos no tempo de exposição diária do brasileiro à televisão. A média nacional, por dia, ficou em 6h17min, ante uma média mundial de 2h55min.

Com o crescimento da audiência da TV, as campanhas já direcionam a maior parte de seus orçamentos para a produção do Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE), que começa no dia 9 de outubro. Ao que tudo indica, será pelo HGPE que os eleitores vão buscar, tanto da oposição como da situação, informações e justificativas mais precisas acerca da gestão de suas cidades, da limpeza e coleta do lixo, sobre o acesso à saúde, em relação ao trânsito, à creche, à população de rua e sobre a postura de políticos durante a pandemia.

A Covid-19 será um tema central na agenda eleitoral porque é difícil encontrar alguém que não tenha perdido um parente ou um amigo para o coronavírus, ou que não tenha sido atingido pelo patógeno. Mais do que memes e posts, as discussões com o devido contraditório importam muito para o eleitor tomar sua decisão de voto, e elas só vão encontrar espaço adequado no HGPE e nos debates entre candidatos, que também são organizados pelos veículos de comunicação.

Apesar da importância maior do HGPE no atual contexto, é preciso lembrar que o critério de distribuição do tempo de propaganda eleitoral entre as candidaturas é pouco democrático.
Tomando a cidade de São Paulo como exemplo, o prefeito Bruno Covas (PSDB), que busca a reeleição apoiado por uma dezena de partidos, deverá ficar com 35% de todo o tempo de propaganda eleitoral, deixando 65% para os 13 candidatos restantes. Isso lhe propicia uma vantagem comparativa substancial em relação aos adversários e contribui para desequilibrar uma disputa extremamente singular se compararmos com as anteriores.

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