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Democracia derrotada

Ausência de debates na TV ofusca processo eleitoral

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A menos de um mês do primeiro turno das eleições, seguimos sem qualquer perspectiva de debates entre candidatos a prefeituras de muitas capitais. O argumento das emissoras de TV, de cancelar os eventos em razão da pandemia de Covid-19, não se sustenta e traz um sério questionamento: estaria o interesse coletivo à mercê da vontade política de alguns meios de comunicação, mesmo sendo eles concessões públicas?

Até o primeiro debate, na Band, todos os outros estavam agendados. Surpreendentemente, na sequência, foram cancelados sob o argumento de se evitar aglomerações. Quem nos últimos meses pisou no estúdio de alguma dessas emissoras sabe que o movimento ali, mesmo com a pandemia, manteve-se intenso; afinal, é impossível sustentar uma programação sem equipe in loco.

Primeiro debate entre os candidatos à Prefeitura de São Paulo, na Band - Bruno Santos - 1º.out.2020/Folhapress

O vaivém de pessoas em salas e corredores e o bate-papo entre funcionários nunca parou. O uso de máscaras, álcool em gel, diferenciação de escalas das equipes, entre outros cuidados, deu conta de manter a programação em pleno funcionamento, incluindo o jornalismo, reality shows e até programas de entretenimento. Todos os canais de TV, com algumas diferenças, mantiveram suas grades de programação, recorrendo inclusive a entrevistas e debates em plataformas digitais. Por que seria diferente justamente na campanha eleitoral?

Em 2018, Jair Bolsonaro, ciente do seu péssimo desempenho e do impacto que isso teria no eleitorado, criou escusas para não participar dos debates e manter a liderança nas pesquisas. Hoje sabemos o quanto isso custou caro para a nossa democracia. Agora, candidatos e candidatas em situação semelhante sequer precisarão se expor a essa polêmica. Ficam dispensados de fazer o confronto democrático de ideias e propostas e de ter de responder, ao vivo, às denúncias que precisam explicar.

A ausência de debates também favorece os concorrentes já conhecidos pela população, que contam com o aparato da máquina pública e o apoio de grandes empresários. Ao não confrontarem seus opositores, escapam de ter que justificar números negativos de suas gestões, metas não alcançadas ou investimentos em projetos inócuos.

E, mesmo onde há debates, o aumento do número de candidatos tem sido mais um empecilho para a discussão das propostas, em razão do tempo escasso —e não do cuidado com a saúde de quem participa. Com um pouco de boa vontade, ambos os problemas podem ser resolvidos, respeitando o princípio de não favorecer esta ou aquela figura. Basta, por exemplo, dividir os debates em dois dias e sortear os participantes para cada um, como já tem sido feito, com sucesso, por muitas emissoras no Brasil afora.

Ao longo dos anos, os debates têm se mostrado momentos essenciais para o eleitor conhecer melhor os candidatos e definir seu voto. Por meio deles, dribla-se o artificialismo da propaganda eleitoral no rádio e na TV e dos sites e perfis de redes sociais dos candidatos, expondo-os a situações reais de conflito de ideias. Neste momento em que a campanha nas ruas está reduzida em razão da pandemia e que vivemos o fenômeno avassalador das fake news, tal espaço ganha importância ainda maior.

Esperamos que as emissoras de televisão assumam sua responsabilidade e comprometimento com a transparência e o processo democrático brasileiro.

Carlos Lupi
Presidente do PDT

Carlos Siqueira
Presidente do PSB

Gleise Hoffmann
Presidente do PT

Juliano Medeiros
Presidente do PSOL

Luciana Santos
Presidente do PC do B

Pedro Ivo
Presidente da Rede Sustentabilidade

TENDÊNCIAS / DEBATES
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