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Paulo Lotufo

Na pandemia, medidas simples explicam mais que modelos complexos

Contagem diária de mortes e casos pela Covid-19 não revela a magnitude real

Paulo Lotufo

Epidemiologista e professor da Faculdade de Medicina da USP

Na reportagem “Letalidade da Covid-19 é semelhante à da pneumonia, calcula estudo”, publicada nesta Folha na terça-feira (20), noticiou-se artigo científico, que reúne 61 estudos, defendendo que a taxa de letalidade por infecção pelo coronavírus seria muito menor que a prevista anteriormente. Reunir dezenas de estudos não implica qualidade, muitas vezes o oposto.

Na epidemia, o tempo precede o espaço. Assim, não se compara casos e mortes entre diferentes locais (países, estados, cidades) que se encontram em diferentes momentos da epidemia. A “taxa de letalidade” (que não é sinônimo de “taxa de mortalidade”) apresentada é a razão das mortes pelo número de infectados, e não de casos, um indicador com muitas debilidades.

 O casal de epidemiologistas da USP Paulo Lotufo e Isabela Bensenor
O professor e epidemiologista Paulo Lotufo - Divulgação

O artigo noticiado comparou a frequência de pessoas com sorologia positiva para o Sars-CoV-2. Seis estudos realizados no Brasil foram elencados, mas eles não são comparáveis entre si, porque utilizaram reagentes com acurácias analíticas muito distintas, tempos de infecção variáveis (há queda nos níveis de anticorpos, com o tempo) e amostragens populacionais diferentes. Na cidade de São Paulo, três estudos independentes (dois deles relacionados neste artigo) mostraram valores entre 0,89% a 19% de pessoas soropositivas para o coronavírus.

Se o denominador da “taxa de letalidade”, a prevalência de anticorpos, tem problemas irremediáveis, o numerador composto pelo número de mortes é mais confiável. Há de se atentar, porém, que se a informação da causa básica de morte não é trivial em situação de normalidade, torna-se mais complexa ainda em situação de pandemia.

Acrescente-se o fato de que a infecção pelo Sars-CoV-2, ao contrário do que ocorre com os demais vírus respiratórios, não somente provoca pneumonia grave como também altera todo o equilíbrio do sistema circulatório, descompensando a grande proporção de pessoas com doença cardiovascular.

Dessa forma, parte da mortalidade considerada como sendo cardíaca ou por acidente vascular cerebral foi deflagrada pela infecção pelo novo coronavírus. Tome-se como exemplo o caso, amplamente noticiado, de um homem que, após infectado pelo Sars-CoV-2, sofreu tromboses que o levaram à morte por acidente vascular cerebral.

A contagem diária de mortes e casos pela Covid-19 não revela a magnitude real, porque existe uma diferença no tempo entre a morte e a comprovação da infecção. Uma morte anotada como “suspeita” por Covid-19 significa, na maioria das vezes, a diferença de tempo ocorrida entre a morte e a confirmação laboratorial da infecção pelo coronavírus. Para exemplificar, o primeiro óbito pela doença a ocorrer no país, no dia 12 de março, teve resultado do exame viral liberado em 31 de maio. Por essas razões, utilizar somente os casos confirmados pela Covid-19 representará subnotificação e redução artificial da taxa de letalidade.

Uma formulação muito mais simples, direta e com menor variabilidade tem sido a de calcular o excesso de mortalidade durante a pandemia a partir dos dados de períodos equivalentes nos anos anteriores. Considerando que a diferença no número de mortes entre dois anos seguidos dificilmente ultrapassa 2%, porcentagens como 75% no Amazonas, em comparação a 15% no estado de São Paulo, expressam de forma muito mais clara o impacto da pandemia do que o ajuntamento de informações não comparáveis, como faz este artigo sobre taxa de letalidade.

Além do excesso de mortalidade, torna-se necessário aprimorar a informação sobre a mortalidade, a fim de identificar causas associadas e calcular os anos potenciais de vida perdidos na pandemia. Essas informações, por serem provenientes de dados primários, terão utilidade permanente para dimensionar a mortalidade na pandemia, exatamente o oposto apresentado em artigo que adiciona dezena de informações imprecisas para obter resultado que era o desejado pelo autor.

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