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Pontapé inicial

Após promessa de privatização, Bolsonaro utiliza TV estatal em jogo de futebol

Com Richarlison, Neymar comemora gol na partida contra o Peru - Lucas Figueiredo/CBF

O discurso bolsonarista sempre denunciou o aparelhamento do governo pela esquerda, por militantes, por ONGs. Agora uma das grandes preocupações do presidente é aparelhar as instituições com seus seguidores, amigos e parentes.

A intervenção do governo na transmissão de um jogo da seleção brasileira, enfim veiculado pela estatal TV Brasil, constitui um experimento da politização indevida de um recurso público —aliás, já desperdiçado de todo modo.

Na campanha, como eleito e durante seu governo, Jair Bolsonaro disse que a Empresa Brasileira de Comunicação deveria ser extinta ou privatizada, pois dava prejuízo, não tinha audiência e era dominada por esquerdistas, além de contar com excesso de funcionários, o que é decerto verossímil.

Depois de reticências e adiamentos devidos a conflitos intestinos do Executivo, a EBC, que inclui a TV Brasil, emissoras de rádio e agência de notícias, foi incluída em maio no programa de desestatização.

No fim de setembro, o plano de venda da empresa foi cancelado por Fábio Faria, ministro das Comunicações. A pasta fora recriada como parte do esforço de aproximação do Planalto com partidos fisiológicos no Congresso. A EBC ficaria, então, apenas mais “enxuta”.

O confronto entre Brasil e Peru pelas Eliminatórias Sul-Americanas da Copa do Mundo não seria transmitido pela televisão aberta, devido a impasses comerciais, mas apenas por canais de internet pagos.

O secretário-executivo das Comunicações, Fábio Wajngarten, propagandista entusiasmado de Bolsonaro, cuidou das negociações de última hora que permitiram a veiculação da partida pela TV estatal, acertada pouco mais de uma hora antes do seu início.

Durante o jogo, o narrador mandou “abraço especial” para Bolsonaro. No intervalo, houve boletins oficialescos de notícias.

Comparadas ao extremismo ideológico de outras repartições e ministérios, tais intervenções parecem menores, mas são reveladoras.

Como é corriqueiro na história, o candidato um dia crítico do uso de recursos públicos para propaganda pessoal e partidária logo se vale desses meios uma vez no poder.

O aparelhamento ontem repudiado é a boquinha do militante ou do bajulador de hoje. Planos de desestatização são abandonados em nome da conveniência de ter aliados e votos no Congresso.

Além do mais, intervenções no universo das comunicações podem ser instrumento para espezinhar ou ameaçar empresas desafetas do poderoso de turno. A história se repete com Bolsonaro.

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